Domingos Gonçalves: Lendário Vezeireiro nas Serras de Cabril Vereireiro Domingos Gonçalves - Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre Ondas da Serra

Domingos Gonçalves: Lendário Vezeireiro nas Serras de Cabril Destaque

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Nas Serras de Cabril, localizadas no município de Montalegre, as suas associações de baldios, ainda realizam a prática ancestral da transumância do gado bovino, em busca de pastos mais verdes. Aqui esta tradição toma o nome de subida da Vezeira, onde o gado é acompanhado pelos Vezeireiros que tomam conta dos animais na Vezeira entre maio e setembro. A nossa equipa foi em busca destes intrépidos homens que visitámos no Planalto das Lagoas, com uma bela paisagem estoica que prende o olhar, nos faz sonhar e acalma o espírito. Aqui estivemos à conversa com o Vezeireiro Domingos Gonçalves, que nos explicou as agruras do pastoreio, neste terra enclausurado pelas cristas montanhosas, onde reina o silêncio e a solidão só é quebrado pelo mugir das vacas, sibilar dos ventos e ataques fortuitos de lobos. As encostas são pontilhadas pelo gado das raças barrosã e cachena e nos céus por vezes ainda se veem majestosas águias-reais, em busca de alimento e guarda dos seus domínios. 

Entrevista ao Vezeireiro Domingos Gonçalves no Planalto das Lagoas em Cabril

Saiba como Domingos Gonçalves se tornou um dos maiores Vezeireiros de Cabril

Neste artigo vamos escrever sobre a antiga prática da transumância do gado subida da vezeira situada na freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, em pleno Parque Natural da Peneda-Gerês. Vamos também conhecer Domingos Gonçalves, Vezeireiro no Planalto das Lagoas, na Serra do Gerês, com ofício de pastor de gado bovino das raças Cachena e Barrosã, e as suas práticas diárias.

Vereireiro Domingos Gonçalves - Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre


No cimo destas serras ainda subsiste uma fauna selvagem que tem o lobo como seu maior representante na terra, capaz de ainda desferir ataques mortais ao gado bovino que deambula nos montes em busca de erva para ruminar, e a águia-real nos céus, que outrora nidificou na Surreira do Meio-Dia, mas que agora apenas resiste em Espanha e cruza a fronteira para recordar as antigas terras lusas onde viveu.

Pode ler esta reportagem na totalidade ou clicar no título abaixo inserido para um assunto específico:

  1. Caminhada para a Vezeira de Cabril
  2. Transumância, subida da vezeira, vezereiro
  3. Baldios de Cabril
  4. Características do Gado no Planalto das Lagoas
  5. Entrevista ao Vezeireiro Domingos Gonçalves
  6. Conclusão final da entrevista ao Vezeireiro
  7. 7 Lagoas dos Poços Verdes do Sobroso
  8. Galeria de fotos da Vezeira de Cabril

Caminhada para a Vezeira de Cabril

Localização da Vezeira no Planalto das Lagoas

Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

O Planalto das Lagoas fica localizado na Serra do Gerês, no interior norte de Portugal, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, na freguesia de Cabril, concelho de Montalegre , distrito de Vila Real, a poucos quilómetros de Espanha, sendo gerido pelo Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril.

Caminhada para chegar ao Planalto das Lagoas

Subida da Vezeira é organizada pelo Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril

Os nossos leitores conhecem a nossa paixão por Cabril, situado no concelho de Montalegre, bem no interior do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Um dos motivos deste amor é a beleza do seu maciço rochoso denominado Surreira do Meio-Dia, onde em tempos a águia-real nidificou e gostaríamos que um dia regressa-se.

Ao longo do tempo fomos conhecendo o seu vale, subindo timidamente as suas encostas e conhecendo as suas tradições como a subida da vezeira com o gado bovino, durante a transumância, organizada pelo Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril, que ocorre desde tempos imemoriais nos meses de maio e regresso em setembro.

Foi desta forma que começou a fervilhar em nós uma vontade de viver mais de perto esta realidade e falar com um destes homens, conhecidos por Vezeireiros, para conhecer o seu temperamento e experenciar o seu trabalho.

Caminhada por trilho pedestre e estradão

Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Para chegar ao cimo desta área da Serra do Gerês em Cabril, tivemos que fazer uma caminhada linear de ida/volta, com cerca de 24 km. Pela manhã começamos por nos dirigir à aldeia de Xertelo e seguir um trilho na encosta do Vale de Cabril, onde no fundo corre o Rio Cavado, que é também partilhado pelo percurso pedestre, PR9 das 7 Lagoas dos Poços Verdes do Sobroso

Na aldeia de Xertelo poderá também visitar:

  • Núcleo rural do casario em xisto;
  • Moinho de Cubo Vertical;
  • Cruzeiro da Srª da Saúde;
  • Fonte, que deita água pela boca de uma medonha carranca em pedra;
  • Trilho dos Poços Verdes do Sobroso, Sete Lagoas – PR9 - Xertelo;
    • Percurso circular com cerca de 12 quilómetros que o leva a percorrer o vale do rio Cabril e a conhecer as Sete Lagoas;
  • Atrações turísticas em Cabril;

Fim do trilho e começo do estradão

Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Depois de deixarmos o serpenteante e tortuoso trilho do percurso pedestre, por uma paisagem de sonho, passamos a zona das 7 Lagoas dos Poços Verdes do Sobroso, onde no dia anterior tínhamos passado o dia, e continuamos a caminhar por um estradão. Se o trilho era difícil o estradão abriu o caminho, mas aumentou a inclinação, por isso a dificuldade manteve-se em conjunto com a beleza natural agreste.

Um facto curioso que observamos foi que o mesmo é utilizado para a prática de BTT e tem acesso por uma estrada perto de Xertelo, pode ser que um dia façamos o percurso de bicicleta para chegar ao Planalto das Lagoas onde se localiza a Vezeira de Cabril

Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Mais abaixo, junto à represa dos Poços Verdes do Sobroso, tivemos que abrir uma cancela, que impede o gado de avançar para locais proibidos e avisa as pessoas que a partir deste ponto o trânsito é interdito, exceto para naturais, residentes em atividades tradicionais de pastorícia e apicultura.

Fauna abundante nesta área da Serra de Cabril

Por este caminho irá encontrar duas fontes de água, uma no trilho e outra no estradão, Fontes de Travassos e Telha, respetivamente. Junto da mesma se estiver atento poderá encontrar por vezes a apanhar banhos de sol, imóvel nos pedregulhos, ou junto de fendas, o Sardão, Lagarto-ocelado, "Timon Lepidus".

Este animal é caracterizado pela sua cor verde e deixar-se ver e fotografar com despreocupação, a menos que lhe queira meter o telemóvel pelos olhos dentro, como vimos alguém fazer e nos estragou a contemplação, altura em que o animal achou que o abuso era ultrajante e foi-se embora calmamente, sem desferir uma murraça naquele humano abelhudo.

Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Depois de passarmos nas imediações da Surreira do Meio-Dia começou a surgir o primeiro gado bovino que nos olhava com curiosidade e questionava quem seriam estes forasteiros desconhecidos, uma delas mais afoita deixou-se permanecer no caminho.

Esta foi uma das poucas vacas que pensamos ser da raça Limousine, ainda jovem, que não teve medo da nossa equipa de reportagem e nos resolveu acompanhar durante algumas centenas de metros, até lhe dar a fome e descer um pequeno declive onde ficou a ruminar. Na foto de baixo podemos ver que depressa a nossa Rosa Rodrigues, do Ondas da Serra, se tornou uma Vezeira de gado.

Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Por estes locais também surgem por vezes pequenas famílias de cavalos da raça garrana, à procura de alimento, que remetem para um passado selvagem deste local, onde ainda subsistem algumas alcateias de lobos e já existiram ursos. 

Sardão, Lagarto-ocelado - Xertelo - Cabril - Parque Nacional da Peneda-Gerês

"O Sardão, Lagarto-ocelado, Timon lepidus, trata-se do maior lagarto da Península Ibérica, podendo chegar aos 80 cm de comprimento total (corpo + cauda). É bastante robusto e apresenta uma coloração verde-alface, muito vibrante, assim como um característico padrão marmoreado na zona dorsal (ocelos negros) e nos flancos (ocelos azuis orlados de negro). Destaca-se, igualmente, a sua cabeça, robusta e de grandes dimensões, mais larga no macho. Possui mandíbulas fortes."1

Sardão, Lagarto-ocelado, Timon Lepidus, Xertelo - Cabril - Parque Nacional da Peneda-Gerês

"A zona ventral é esbranquiçada, esverdeada ou amarelada, com escamas dispostas em filas longitudinais. A cauda é comprida, podendo ultrapassar o dobro do tamanho corporal. Apresenta cinco dedos em cada pata."1

Mariolas dos pastores em Cabril

Na nossa subida para o Planalto das Lagoas e no cimo da serra encontramos muitas mariolas que têm a função de guiar os Vezeireiros principalmente no inverno, quando está mau tempo, chuva ou nevoeiro e eles poderem reconhecer os trilhos e não se perderem.

Mariolas dos pastores, Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

"Por todo o PNPG existem centenas de Mariolas cuja principal função é orientar os pastores em tempo de nevoeiro na serra, assim como caminheiros que percorrem os trilhos existentes em todo o parque.
Falamos de uma sobreposição de pedras maioritariamente construídas por pastores mas que nos dias de hoje a sua manutenção é também realizada pelos próprios caminheiros.

Não construa Mariolas ao acaso pois dessa forma estão a prejudicar quem realmente precisa delas. Basta ajudar na manutenção das existentes."8

Depois de vários dias sem sucesso a perscrutar os altos céus, com os nossos binóculos, vimos finalmente um casal de águias-reais, que numa visita anterior, nos disseram que nidificam em Espanha, num projeto promovido pelos nossos irmãos espanhóis.

Chegada ao Planalto das Lagoas - Baldios de Cabril

Planalto das Lagoas - Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Finalmente depois de uma caminhada de quatro horas chegámos ao Planalto das Lagoas, onde a vista descansou da aberta paisagem e as pernas da penosa subida. Aqui a Serra do Gerês abre-se para um amplo espaço verdejante, cercado por escarpadas colinas graníticas, com uma lagoa no meio e outra mais escondida, que deram o nome ao local.

Em algumas zonas os muros formavam áreas semeadas com centeio e outras culturas. Ao fundo vimos a cabana para onde nos dirigimos e nos esperavam como combinado os dois Vezeireiros da Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril

Planalto das Lagoas - Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Planalto com duas lagoas

Este planalto deve o seu nome a duas lagoas que existem na sua planície verdejante onde os vezeiros têm a sua cabana. Uma delas está mais escondida por um pequeno monte e é conhecida por Lagoa Marinha, ao contrário da outra nunca seca. Um facto curioso que o Vezeireiro Domingos Gonçalves nos contou foi que quando a lagoa seca as rãs veem a saltitar até à outra que tem água. 

Lagoa Marinho no Planalto das Lagoas - Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Nós no local vimos que o gado gosta de passear pelo meio da mesma, não tendo problemas em enfiar as patas nas águas das Lagoas. A Lagoa Marinha é o único lugar do Parque Nacional da Peneda-Gerês onde cresce o lírio do Gerês.

Lagoa Marinho no Planalto das Lagoas - Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Planalto com currais de centeio - projeto Carrejadas

No passado todo este Planalto das Lagoas estava todo semeado com centeio, hoje apenas subsistem dois currais ou prados, onde é ainda semeado este cereal no âmbito do projeto Carrejadas, promovido pelos Conselhos dos Baldios de Cabril e Pincães, para relembrar a tradição.

Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Como nos foi explicado no âmbito deste projeto este cereal é colhido em julho, atado em molhos e posto a para secar para depois ser malhado em agosto na eira e fazerem pão.

Carrejadas - A recuperação de uma tradição

Em Cabril, o êxodo rural fez-se notar de uma forma avassaladora nas décadas de 60 e 70 do século passado e trouxe uma nova realidade: a fuga em massa do povo na procura de melhores condições de vida. Os habitantes que restaram foram sendo poucos para as tarefas mais árduas.

Priorizaram-se as tarefas agrícolas mantendo-se o cultivo dos campos mais próximos de casa, em detrimento dos currais da serra alta, onde outrora se cultivava centeio.

O cultivo dos currais implicava um grande esforço físico e envolvia muita mão-de-obra. As aldeias do vale de Cabril estão localizadas a sensivelmente 400 m de altitude e os currais localizam-se a uma altitude média de 1000m. O trabalho árduo exigia que fossem os homens mais fortes a executá-lo.

O projeto “Carrejadas”, dinamizado pelo Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril trouxe de volta a sementeira, a segada, malhada e carrego de centeio em serra alta, atividade agrícola ancestral outrora perdida."9

Chegada à Cabana dos Vezeireiros

Cabana da Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

A nossa equipa aproveitou estas caminhadas, para tirar belas fotos, desfrutar da paisagem e identificarmos a fauna e flora. Depois de chegarmos ao Planalto das Lagoas ainda tivemos que percorrer o mesmo para finalmente chegarmos à cabana dos pastores, onde fomos bem recebidos pelos dois Vezeireiros, Domingos Gonçalves e João Lopes, um discreto e o outro mais extrovertido. 

O local é um espaço simples de homens solitários, sem grandes mordomias, conforto e voltado para as questões práticas.

No interior existe uma pequena sala, com uma lareira, dois beliches, onde se nota que vivem homens pela forma como a roupa estava disposta e uma concertina descansava em cima da cama à espera de ser tocada. Na eterna e saudável diferença de género onde muitos veem desarrumação os homens veem facilidade de utilização. Numa das paredes as prateleiras estavam cheias de mercearia para as suas refeições.

Cabana da Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

No exterior existe também uma churrasqueira, embelezada na parte superior por crânios de animais, que faz lembrar o velho oeste selvagem. Segundo nos foi dito pelos vezeiros este cabana atual veio substituir uma anterior, que não tinha condições, embora não tivesse sido fácil obter a autorização para a construção do Parque Nacional Peneda-Gerês.

Almoço partilhado com os Vezeireiros e amigos

Nós quando chegamos à cabana os vezeiros preparavam-se para almoçar. A comida estava a ser confecionada ao lume do fogo da churrasqueira exterior e o cheiro depressa nos subiu à cabeça, depois da grande empresa que tínhamos feito. Os dois homens convidaram-nos para a refeição e foi mais um momento mágico na nossa vida de repórteres porque nunca tínhamos almoçado nestes circunstâncias.

Em cima da mesa foi colocado um grande tacho, com macarrão e feijão e ao lume foi fritada vitela. Os cães por aqui são como gente e vão também recebendo a sua alimentação, por isso eles fazem sempre em grandes quantidades para partilharem com os animais.

As gentes de Cabril têm o hábito aos fins-de-semana e feriados irem por vezes até esta cabana e usarem a churrasqueira para confecionarem tainadas. Os vezeiros não se importam porque é uma maneira de combater a solidão e falarem com as gentes da terra. Durante o resto do tempo os convivas passam o tempo a conversar, nos jogos tradicionais e ouvirem o vezeiro Domingos Gonçalves a tocar concertina.

Foi desta forma que chegou ao local um grupo de jovens composto por amigos e casais de namorados, abaixo identificados. Os mesmos aproveitaram as brasas da churrasqueira para grelhar grandes tiras de vitela denominadas talhadas, das quais ainda petiscamos, embora já tivéssemos afastado o desejo por comida e bebida.

Amigos com os Vezeiros de Cabril no Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Grupo de amigos e vezeiros: Raquel Azevedo - Cabril, Marta Macedo - São João da Pesqueira, Hugo Pinto - Cabril, Vezeireiro Domingos Gonçalves - Cabril, Sérgio Sousa - Cabril, João Lopes “Desaparecido” - Cabril e Rui Azevedo - Cabril.  

Transumância, subida da vezeira, vezereiro

Antiga tradição da transumância onde o gado é levado para as serras

Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

A transumância é uma das maiores deslocações sazonais de rebanhos, acompanhados pelos seus pastores. Caminham entre as pastagens das estações, acompanhando as alterações naturais, sociais e culturais das paisagens envolventes.

Durante a transumância ascendente, que coincide com as festas populares, os animais partem dos vales e das planícies para as pastagens das serras. Já durante a transumância descendente, que inicia no começo do inverno, os rebanhos regressam dos altos prados para as zonas baixas, onde os pastos crescem e os alimentam.2

Subida da Vezeira 

"Cada Conselho Diretivo de Baldios, Fafião, Pincães, Cabril e Lapela organiza a sua subida que acontece no mês de maio. Manhã cedo dá-se o chamamento do gado para se reunir em cada aldeia e começar a subida da vezeira. Os animais deixaram as aldeias e vão para os pastos que se encontram verdes no alto da serra e aí ficam até finais de setembro.

Durante esse período, cabe aos donos do gado, revezarem-se para pastorear a Vezeira. O número de dias passado na serra é estabelecido em função do número de animais de cada proprietário, isto no Baldios de Fafião, nos restantes, era um só homem em que os donos pagaram em géneros (batatas, milho, vinho..) também em função do número de animais.

Este costume secular ainda se mantém até aos dias de hoje."3

Vezeireiro - Homem que guarda a vezeira

Domingos Gonçalves, Vezeiro do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

"O Vezeireiro é o homem que guarda a vezeira Ao vezeireiro compete saber onde está o gado, não o deixar afastar dos limites da vezeira e avisar os proprietários em caso de doença, comunicar o nascimento de crias ou alguma situação estranha ao dia a dia na serra. Este sobe com o gado em maio e fica nos abrigos no alto da serra. Em setembro, desce juntamente com o gado."3

Vezeiros dos Baldios de Cabril

O Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril e Picães, possui na sua vezeira, dois Vezeireiros que vão ficar de serviço no cimo da serra a guardar o gado de 1 de maio a 29 de setembro 2024, o mais velho e que está à mais tempo neste serviço chama-se Domingos Gonçalves e o colega João Lopes, ambos de Cabril e que se revezam na folga semanal.

Baldios de Cabril

História dos Baldios

"Baldios a designação dada a um tipo ancestral de propriedade comunitária prevista na constituição portuguesa para se referir aos terrenos possuídos e geridos pelos habitantes das comunidades locais (compartes).

Os habitantes da aldeia(s)/lugar(es) organizam-se para eleger os seus representantes, e em assembleia tomam decisões democráticas sobre a gestão e manutenção da sua área comunitária.

A origem dos baldios em Portugal não tem data conhecida, mas é reportada há várias centenas de anos, perdendo-se no tempo o momento a partir do qual passou a existir a propriedade comunal, sendo conhecidos muitos episódios de apropriação e das lutas das comunidades rurais pela manutenção da sua propriedade comunitária sobejamente retratados na obra do mestre e escritor Aquilino Ribeiro "Quando os lobos uivam".

A partir do restabelecimento da democracia em 25 de Abril de 1974,os baldios foram devolvidos à posse, fruição e administração dos povos, que se organizaram em Assembleias de Compartes.

Atualmente as áreas comunitárias (baldios), possuem legislação própria (Lei 75/2017 de 17 de Agosto) que normalmente é complementada pelo que se designa por "Regulamento de uso e fruição dos Baldio". Nestes dois documentos estão contempladas as normas de funcionamento e gestão, mas também os direitos e deveres de quem utiliza estes espaços, sejam eles compartes ou visitantes."10

Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril

O Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril engloba uma área de 5155 hectares totalmente inseridos no Parque Nacional da Peneda-Gerês.4

Missão do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril4

  • Assegurar o uso, a fruição e a administração dos terrenos baldios de acordo com os usos e costumes locais;
  • Gerir os valores ambientais, culturais e patrimoniais dos terrenos baldios;
  • Dinamizar atividades de preservação e melhoria do património natural dos terrenos baldios;
  • Promover boas práticas de uso e fruição dos terrenos baldios.

Composição do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril4

  • Assembleia de compartes
  • Conselho diretivo
  • Comissão de fiscalização

Características do Gado no Planalto das Lagoas

Carácter do gado 

Nós como amantes das serras temos vindo a cruzar-nos ao longo dos anos em Portugal e também na Espanha, com gado da raça Arouquesa e Limousine, respetivamente. Ambos têm um carácter afável, embora conheçamos melhor a Arouquesa em virtude das nossas caminhadas pelas Serras da Freita, Arada, São Macário e Montemuro, nas proximidades do nosso distrito de Aveiro.

As nossas amigas não têm medo dos homens, são extremamente mansas se não foram incomodadas e se for necessário cruzam-se consigo nos estreitos trilhos das serras sem se desviarem um milímetro.

Estas animais são obedientes e bem comportados e vão sozinhas para as serras pastar pela manhã e regressam ao final do dia aos currais sem o dono ordenar. Depois de tão grandes serviços, ainda dão leite e a sua carne para a alimentação humana.

Lagoa Marinho no Planalto das Lagoas - Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Ao contrário destas, as que encontramos no Planalto das Lagoas, das raças Cachena e Barrosã, tem um caráter medroso, fugidio, desconfiado e segundo o Vezereiro Domingos Gonçalves desobediente. Esta sua maneira de ser está relacionada com o facto das mencionadas no primeiro parágrafo não terem predadores naturais e as segundas serem por vezes mortas pelos lobos, o que as tornou mais cautelosas.

Esta situação dificultou a captação de fotografias e havemos de regressar com mais tempo para completar melhor o trabalho. As vacas e bois nossos vizinhos dos concelhos de Arouca, Castro Daire, Cinfães e São Pedro do Sul, são de tal modo simpáticas que até lhe podemos pedir para irem para determinado local e fazer uma pose fotogénica para as nossas fotografias.

Gado de Raça Cachena

Vacas Raça Cachena - Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

"De rusticidade ímpar, maior do que qualquer outro bovino autóctone da península ibérica, a raça Cachena é aquela que encontramos na alta montanha, em cotas elevadas, acima dos 800 metros e que, pela sua dimensão e resistência às condições mais adversas, define o seu próprio solar.

Vacas aleitantes por vocação, apresentam-se de muito pequeno porte, com altura ao garrote que não chega a ultrapassar os 1,15 metros.

Pastoreando livremente em grupo, em áreas amplas e comuns, vive ao ar livre durante praticamente todo o ano. Raça explorada em regime extensivo, por vezes quase semi-selvagem, tem persistido ao longo dos tempos e é atualmente, parte integrante do património genético do nosso país."5 

Gado de Raça Barrosã

Boi de Raça Barrosã - Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

"A raça Barrosã distingue-se das outras pela sua armadura considerável, que se projeta quase verticalmente e em forma de lira, assim como pelas suas formas harmoniosas e a carne de características organolépticas inigualáveis.

Embora deva o seu nome ao planalto do Barroso, iniciou a sua expansão no Minho, onde quase substituiu a Galega, chegando mesmo a povoar concelhos como a Maia e o Porto. Estamos perante uma raça de dupla aptidão, trabalho e carne, tendo esta última sem dúvida um futuro mais promissor, com a comercialização da “Carne Barrosã” – DOP, como produto certificado.

Insere-se principalmente em duas áreas geográficas: Minho e Barroso. Pode dizer-se que estamos perante um animal perfeitamente adaptado a zonas de agricultura de montanha, onde desempenha um papel importante, permitindo trabalhar as pequeníssimas leiras, fazer a fertilização das mesmas com o estrume e valorizar os recursos alimentares naturais disponíveis que de outra forma seriam desperdiçados."6

Entrevista ao vezeireiro Domingos Gonçalves 

Vezeireiro Domingos Gonçalves de Cabril

Vezeireiro Domingos Gonçalves, na Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

O Vezeireiro Domingos Gonçalves, é um homem, alto, magro, de olhar sereno e temperamento moldado pela solidão e silêncio das agrestes montanhas. De olhar atento observa do seu recanto a vida que passa e quando fala ou lhe perguntam algo é poupado nas palavras e só emite juízos ponderados e objetivos. Um hábito que adquiriu resultante das horas que passa a perscrutar o horizonte foi estar sempre alerta e atento a tudo que o rodeia.  

Domingos Gonçalves, tem 58 anos de idade, solteiro, vive em Cabril, tendo nascido na aldeia de Chelo, sendo oriundo duma família com cinco irmãos, dos quais dois já partiram. Este homem nas horas vagas é tocador de concertina que vimos pousado numa das camas da cabana. O mesmo disse-nos que sempre trabalhou na agricultura e criação de animais, por isso este ofício não lhe é estranho.

Perto da cabana, os dois Vezeireiros têm uma pequena horta onde plantam alfaces, cebolas, couves e tomates, que usam nas refeições.

O mesmo tornou-se Vezeireiro através duma brincadeira, quando há 5 anos o Presidente do Conselho dos Baldio de Cabril telefonou-lhe a perguntar se ele estava interessado neste serviço. No princípio começou por recusar, mas depois de conhecer as condições acabou por aceitar. Este serviço é feito por duas pessoas e já teve outros Vezeireiros a ajudá-lo, sendo ele o mais antigo.

Ofício ancestral de Vezeireiro

Rosa Rodrigues do Ondas da Serra e o Vezeireiro Domingos Gonçalves, na Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

A transumância das vacas e bois ocorre de 01 de maio a 29 de setembro

O Vezeireiro é uma pessoa que toma aqui conta do gado no cimo do monte, durante cinco meses, de 01 de maio a 29 de setembro, sendo uma prática de uso antigo. Temos que estar os dois aqui 24 sobre 24 horas, só podendo ir um de folga à vez.

Depois temos que ir diariamente bem cedo dar a volta aos animais, para ver se há animais mortos ou vacas paridas, para transmitir aos donos. Nas vésperas dos domingos, os Vezeiros ligam aos donos para lhe dizer onde estão os animais para eles no dia seguinte os irem ver ao local." Vezereiro Domingos Gonçalves

No dia 01 de maio é feita a subida da vezeira

No dia 01 de maio nós fazemos a subida da vezeira com o gado e quando chegámos cá acima, os animais começam a espalhar-se para procurar comida, uns já conhecem o terreno e sabem para onde ir, outros ficam por mais perto. No dia 28 de setembro ligamos aos donos para os avisar onde está o seu gado e são eles que os vêm buscar.” Vezereiro Domingos Gonçalves

Razões para o Gado ser trazido para o cimo da serra

Vezeireiro Domingos Gonçalves na Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

As razões o Vezeireiro Domingos Gonçalves apontou para o gado ser trazido para os planaltos dos cimos das serras estão relacionadas com práticas antigas, já que no topo existem melhores pastos e aliviaram as pastagens do fundo do vale de Cabril.

Número de cabeças e raças de gado no cimo da serra

No pico da vezeira irão estar 600 cabeças de gado na serra

Neste momento devem já estar aqui para cima perto de 400 cabeças de gado e ainda irão chegar mais trazidas por outros criadores. No final o número total deve ultrapassar as 600. Todos estes animais são da freguesia de Cabril, com exceção das aldeias de Fafião e Lapela, que têm conselhos Diretivos de Baldios e vezeireiros próprios.

As raças que estão aqui em cima são Cachena, Barrosã, que é mais forte e também algumas Limousine. Os machos da raça Barrosã acasalam com as vacas Cachenas, nascendo depois crias cruzadas.” Vezereiro Domingos Gonçalves

Vida diária do Vezeireiro de Cabril

Vezeireiro Domingos Gonçalves na Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Os Vezeireiros levantam-se antes da aurora

Nós levantámo-nos cedo, ainda hoje foi às cinco da manhã, para irmos dar a volta ao gado à zona dos Carris, sempre a caminhar e regressamos às cinco ou seis da tarde, hoje por acaso correu bem, mas às vezes é ainda mais tarde.

Quando encontramos o gado mais afastado por vezes trazemo-lo para mais perto, mas elas por vezes não querem vir e temos que andar a correr atrás delas. Por exemplo, há pouco tempo estavam no Porto da Lage e tivemos que as mudar de pastagens, porque ali não tinham que comer e aqui nas lamas ou chãs tem bons pastos." Vezereiro Domingos Gonçalves

Os vezeireiros são ajudados por três cães

Nas nossas voltas somos ajudados por três cães, o meu Salvador, Rex e Max, os dois primeiros com quatro anos e o último com um, que sempre nos acompanham e defendem se for necessário, com eles por perto o lobo não entra de qualquer maneira. Eu gosto desta vida, porque de outro modo ninguém aguenta esta ocupação.” Vezereiro Domingos Gonçalves

Cão de guarda à Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Quando fomos acompanhar o Vezeireiro na volta que deu pelas lagoas o seu cão Salvador foi o único a acompanhar-nos e estava sempre atento ao que se passava em redor, analisando com atenção a paisagem e com as orelhas a perscrutar todos os sons que chegavam

Nós por vezes víamos o mesmo muito agitado e com um comportamento preocupado, sinal que podia estar a sentir algum perigo que para nós estava escondido. O seu dono quando vai de folga o animal continuar no cimo do monte.

Os lobos e as víboras-cornudas povoam estas serras

Pelo caminho o Vezeireiro Domingos Gonçalves mostrou-nos excrementos de lobo, uma prova em como este predador pela calada está sempre de atalaia à espera de uma oportunidade para atacar, que temos que entender faz parte da sua natureza e cumpre uma função de controle do número de espécies herbívoras, doentes e velhas.

Há também outro perigo nestes montes que se chama víbora-cornuda, uma das poucas espécies venenosas em Portugal e que o Vezeireiro Domingos Gonçalves já encontrou nos seus pastoreios.

Identificação do gado nas serras

Alguns dos animais têm brincos de identificação, mas nós também começamos a conhecê-los e associá-los aos seus criadores. Eu e um sobrinho meu também aqui temos gado.” Vezereiro Domingos Gonçalves

Trânsito do gado nas serras

Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

O gado no cimo do monte vai para onde quiser, comendo erva ou carqueja, mas nós andamos sempre a vigiá-lo. Por vezes acontece que os animais acabam por ir mais para longe e misturam-se com o gado de Lapela, sem qualquer problema.

Por vezes os animais vão até ao final da serra, passando a fronteira e chegando a Espanha, mesmo nestes casos o gado só regressa no final de setembro. Nós não podemos mexer no gado, apenas podemos vigiar deixamos onde estiver.” Vezereiro Domingos Gonçalves

Na lagoa marinha nós encontramos dentro de água algumas vacas de raça cachena, de cor escura, que estavam a ser assediadas por um boi de raça barrosã.

Ataques dos lobos ao gado

"O gado dorme pela serra e se aparecer algum morto nós temos que comunicar ao dono e ao Conselho dos Baldios. As carcaças dos animais mortos são devoradas por lobos ou abutres. Há cerca de duas semanas, pela primeira vez este ano aqui no cimo da serra, uma vaca foi morta e totalmente comida por lobos na zona de Pedra Cavalos e hoje às 17h00 eu vou acompanhar vigilantes do parque até ao local para registar a ocorrência.

Segundo se consta aqui há umas três ou quatro alcateias, com cinco ou seis lobos cada uma. Há cerca de vinte dias os lobos mataram e comeram-nos aqui um cão, para já não atacam pessoas.” Vezereiro Domingos Gonçalves

Os animais ao sentirem que os Vezeireiros estão na cabana vem dormir para as imediações por se sentirem mais seguros. Os ataques dos lobos são feitos por toda a alcateia e um deles ataca mordendo o pescoço da presa.

Indemnizações pelos ataques dos lobos ao gado

O Vezeireiro Domingos Gonçalves demonstrou o seu descontentamento pelo processo burocrático para o Parque Nacional Peneda-Gerês pagar as indemnizações pela morte do gado pelos lobos, que muitas vezes são demoradas ou acabam mesmo por nunca acontecerem

Os criadores não querem ter que gastar dinheiro com advogados e acabam por ficar com os prejuízos. No caso dele, há muitos anos um animal seu foi morto, mas o parque pagou-lhe a indemnização devida.

No entanto, uma pessoa que vive em Cabril também nos contou a outra face do problema, no passado poucas pessoas tinham gado na serra, hoje existem muitos criadores com muitos animais e apoios do estado, por isso todas as exigências têm que ser equilibradas.

Dificuldades da vida no cimo das serras

Vezeireiro Domingos Gonçalves na Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

O Vezeireiro Domingos Gonçalves reforçou que as pessoas para levarem esta vida e estarem cinco meses no cimo do monte, têm que gostar muito desta ocupação, caracterizada pelo isolamento, solidão e silêncio.

As pessoas para trabalharem aqui na vezeira têm que estar prontas para abdicarem de muito conforto, sobreviveram com pouca tecnologia e trabalharem de sol a sol, por vezes antes da alvorada e depois do crepúsculo.

Este Homem contou-nos que nem sempre o sol brilha e este ano durante o mês de maio, esteve quase sempre a chover e com muito frio, que contrasta por vezes com um calor infernal no pico do verão, que disse, no entanto, suportar bem.

O inverno no cimo destas serras é mais custoso porque têm que ter sempre lenha, com a lareira sempre aceso, mas mesmo assim o frio e humidade penetram nas roupas, atravessam paredes e dão cabo dos ossos, nas aldeias em baixo a vida é mais fácil e com mais comodidades.

Factos da vida dos animais da raça bovina

Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Durante a nossa visita ao Planalto das Lagoas durante a tarde, ouvimos o longo mugir de uma vaca. O Vezeireiro Domingos Gonçalves explicou-nos que as vacas vão pastar pelas serras e deixam os seus vitelos num determinado local deitados a descansar, depois de estarem saciadas regressam ao seu encontro e chamam pelas crias para virem mamar. A maioria das crias nascem no cimo da serra e no próprio dia já caminham sozinhas. 

Conclusão final da entrevista ao Vezeireiro 

Vezeireiro Domingos Gonçalves na Vezeira do Conselho Diretivo dos Baldios de Cabril - Planalto das Lagoas - Parque Nacional da Peneda-Gerês - Cabril - Montalegre

Esta foi uma reportagem que fizemos com muito carinho e que nos ficou na memória pela forma como fomos recebidos pelos Vezeireiros e amigos, almoço partilhado, carácter dos pastores, um calmo e outro mais efusivo, beleza do a nível geográfico e riqueza da fauna e flora.

O Vezeireiro Domingos Gonçalves gostou muito do nosso chapéu de boiadeiro, que gostamos de usar para dar um ar de aventura, onde na frente tem a cabeça de um bovino com cornos, que até parece um boi da raça cachena, e que lhe oferecemos com muito agrado.

Depois de regressarmos à nossa terra vareira de Ovar, sabemos que no cimo do Planalto das Lagoas, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, em Cabril - Montalegre, existe um símbolo do Ondas da Serra, que representa a nossa alma nesta Vezeira de Cabril.

Conforme ficou combinado havemos de regressar brevemente para mergulhar mais profundamente na vida ancestral destes vezeiros e com eles sair antes da alvorada para ir passar em revista o gado e saber por onde anda.

7 Lagoas dos Poços Verdes do Sobroso

Rosa Rodrigues do Ondas da Serra nas 7 Lagoas dos Poços Verdes do Sobroso

No regresso a Xertelo ainda fomos a tempo de dar um mergulho e nadar nas 7 Lagoas dos Poços Verdes do Sobroso, que fica junto ao trilho da caminhada e descer até às últimas no fundo do vale. 

Uma das Lagoas na parte inferior permite dar saltos de 10 metros

"Perto de Cabril, no Parque Nacional da Peneda-Gêres, encontramos um local paradisíaco que origina uma cadeia de lagoas, a Cascata das 7 Lagoas dos Poços Verdes do Sobroso, são umas das pérolas do Gerês.

São dotadas de uma incrível paisagem envolvente que contrasta com a água pura, límpida e cristalina. É um local de perfeita comunhão com a natureza. Para os amantes da adrenalina existe a possibilidade de saltar a 10 metros de altitude.

Para os mais aventureiros existe uma com um pequeno escorrega natural que lhe permite ter momentos de pura diversão. Conta com umas mais compridas e outras mais fundas o que lhe permite nadar.

O caminho para lá chegar exige uma longa caminhada a pé, de pelo menos 6 km (para cada lado). Mas vale o esforço. Vai encontrar uma harmonia de cores, onde o verde da água e o castanho das rochas fazem um casamento incrível."7

Galeria de fotos da Vezeira de Cabril 

Créditos e Fontes pesquisadas 

Texto: Ondas da Serra, com exceção do que está em itálico e devidamente referenciado.

Fotos: Ondas da Serra, com exceção das que estão referenciadas

1 - https://www.museubiodiversidade.uevora.pt/elenco-de-especies/biodiversidade-actual/animais/cordados/repteis/timon-lepidus/
2 - https://turismodocentro.pt/artigo/roteiro-pela-transumancia-no-centro-de-portugal/
3 - https://cabril.pt/tradicoes-serranas/
4 - https://baldiosdecabril.pt/
5 - https://www.cachena.pt/
6 - https://carnebarrosa.com/raca-barrosa/
7 - Câmara Municipal de Montalegre.
8 - https://pnpgeres.pt/2018/03/14/mariolas/
9 - https://baldiosdecabril.pt/carrejadas/
10 - Painel informativo colocado nos Baldios de Fafião, perto do Miradouro de Fafião, no estradão de acesso à Lagoa Verde.

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Autor

Rosa Maria

Rosa Maria, é Diretora/Editora do Orgão de Comunicação Social, Jornal Online, Ondas da Serra, inscrito na ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação Social, registo nº 126907 de 16-FEV-2017, com o Cartão de Equiparada a Jornalista n. TE-734 A, cofundadora da marca Ondas da Serra, registada no INPI - Instituto Nacional da Propriedade Industrial, processo nº 567314, publicado no Boletim de Propriedade Industrial nº 190/2016, de 30 de Setembro 2016.

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