A força do caminho e a fraqueza do mundo Laucini Antonello - Brescia , Giorgio Mariasella - Torino, Mombella Pierzuigi - Brescia e Edoardo Azzimonti - Milão Ondas da Serra

A força do caminho e a fraqueza do mundo Destaque

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Os Caminhos de Santiago exercem em nós uma força que nos impele a visitar regularmente o apóstolo, que reza a lenda descansa na catedral de Compostela. Este ano fizemos a jornada partindo do Porto, seguindo pela costa, saboreando a brisa marítima, o azul infinito do mar e as encostas rochosas à espera de serem por ele reclamadas.

Primeiro marco do Caminho à saída da 'Guard' - Espanha

A fatalidade do peregrino Italiano

Era uma vez… Assim começam as histórias que acabam invariavelmente com finais felizes, mas nem sempre é assim. No final deste caminho ficamos hospedados no hostel Azabache, tão perto da catedral que saltávamos da cama, quando às altas horas da madrugada, troavam os sinos nas torres altaneiras.

Foi neste local que conhecemos os peregrinos Italianos, Laucini Antonello, Giorgio Mariasella, Mombella Pierzuigi e Edoardo Azzimonti, todos pela primeira vez no caminho e com devoção religiosa. O grupo partiu do Porto e iriam continuar depois até Muxia/Finisterra. Nesse domingo todos acordamos bem-humorados, cheios de energia e fazendo preparos, eles para continuarem e nós para regressar.

Já tínhamos guardado tudo no carro e íamos para o dejejum, quando num acesso à Praça do Obradoiro, à mais sagrada desta terra, surgiu esbaforido a correr, Mombella Pierzuigi (terceiro na foto de cima a contar da esquerda), que nos disse que lhe tinham acabado de roubar a mochila, quando estava distraído num bar a falar ao telemóvel. Enfim, ficou o pobre homem ali uns momentos, por nós confortado, com o olhar vago a digerir com dificuldades este infortúnio. É assim o caminho desta vida, tão depressa o sol brilha como se avista a chover, tão depressa estamos bem como nos estatelamos no chão, temos é que ter sempre forças para levantar e não deixar que os grossos mares nos afogem. Da nossa parte pouco podemos fazer a não ser escolher os seus rostos para a nossa história e desejar-lhes que tenham animo para continuar.

O caminho do Porto a Santiago de Compostela

Regressando à nossa história, esta foi a nossa terceira viagem e aquela que parecia que não se iria realizar. A mesma começou umas semanas antes, pelo caminho interior de Viseu, contudo este trilho está mal sinalizado, mantido e com subidas/descidas muito acentuadas. A nossa bicicleta avariou, o nosso físico quebrou e o tempo padeceu, terminamos em Castro Daire.

Esperamos alguns dias por uma abertura no tempo, que mal surgiu partimos do Porto, no dia sete de outubro, pelo caminho da costa e chegámos ao nosso destino no final do dia dez. O caminho é uma oportunidade para nos escutarmos, caminhando ou pedalando, por estradas em terra batida, rurais, florestais, passadiços, junto a vias rápidas, caminhos de ferro, ruelas, aldeias, vilas ou cidades. As nossas questões internas e externas vão surgindo e se for o tempo debeladas, perdoadas ou esquecidas.

A partir de Esposende fizemos o caminho junto à costa, com o mar à vista, pernoitando no primeiro dia em Viana do Castelo, onde conhecemos um pescador da lampreia que um dia iremos acompanhar. No dia seguinte recordamos umas férias quando passamos a Vila Praia de Âncora e tomamos como naquele verão o café em frente à doca de pesca.

Passamos de barco a foz do Rio Minho em Caminha, onde desembarcarmos em terras espanholas. Seguindo uns passadiços, chegamos “A Guarda”, a última vez que ali tínhamos estado, era um alvoroço provocado pela festa da “Embarcação tradicional Galega”. Entramos em Baiona, admirando nos céus o Castelo de Monterreal e seguimos viagem para Vigo, onde dormimos.

No terceiro dia por contingências temporais, regressamos ao caminho bem cedo, ainda a lua namorava alta no firmamento, não fosse o seu luar difuso, teríamos dificuldades em passar uma grande floresta, coberta de denso nevoeiro em alguns recantos, mas com a sua ajuda lá conseguimos chegar à Redondela.

Chegamos a Compostela nesse dia, sendo novamente acometidos daquele sentimento que só os peregrinos conseguem viver e agradecemos novamente a Santiago, ter-nos dado a oportunidade de regressar.

Quem pretender fazer este caminho, poderá regressar de comboio ao Porto, diariamente há um comboio às 06h15, com transbordo em Vigo. Se for de bicicleta tenha em atenção que o mesmo só leva três, as outras terão que ir acondicionadas em saco próprio, que se vende na estação.

O atendimento das pessoas no Ofício do Peregrino

Pela manhã do quarto dia fomos carimbar a credencial de conclusão desta peregrinação, denominado “La Compostela”, no ofício do peregrino. Uma das funcionárias dirigiu-se à fila e com maus modos, fazendo uma serie de exigências, para apressar o serviço, um Português reclamou que não tinha feito 300 quilómetros para aturar aquela má disposição. A dita senhora acabou por nos autenticar a credencial com os carimbos ao contrário, elucidativo de alguém que não ama o próximo ou está farta do seu trabalho.

A Catedral ainda está em obras e desta vez não podemos dar um abraço ao santo, mas em compensação podemos assistir a uma missa pelos peregrinos, celebrada pelo padre José, que nos relembrou que este caminho é uma preparação para um outro maior. Na sua homilia foi auxiliado pela irmã Magdalena, cuja sua voz melodiosa cantando a liturgia nos apaziguou o espírito e acalmou o coração.

O Museu das Peregrinações e de Santiago

Tivemos ainda tempo de visitar o “Museu das Peregrinações e de Santiago”, onde espalhados pelas suas cinco áreas temáticas, podemos compreender melhor a grandeza desta demanda, que já dura há tantos séculos e não é exclusiva dos católicos.

Em 2021 celebra-se um novo ano Jacobeu, que acontece sempre que o dia 25 de julho, coincide com um domingo. Este dia é dedicado desde a idade média por determinação papal ao apóstolo Santiago. Pela nossa parte esperamos regressar, mas estamos a pensar dar descanso à bicicleta e fazer a experiência a caminhar.

Os peregrinos no caminho do Ondas da Serra

O caminho apesar da pandemia não afastou os peregrinos, e por essas terras fora fomos conhecendo pessoas de vários países, que damos agora a conhecer, porque foram como nós tocadas pela sua magia. Apesar dos malefícios desta doença, ela serviu para nos lembrar que todos partilhamos a condição humana, que não conhece raças, países, sexos, posições sociais, politicas ou religiosas.

Para o amigo Mombella Pierzuigi, Ci auguriamo che tu abbia la forza di alzarti e tornare per l'anno.

 

 

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Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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