Manhouce terra do canto da natureza e tradições Aldeia de Bondança - Manhouse Ondas da Serra

Manhouce terra do canto da natureza e tradições

Classifique este item
(4 votos)

Num dia que ameaçava chuva, imbuídos desta necessidade de mergulhar no interior profundo de Portugal, fomos conhecer Manhouce, do concelho de São Pedro do Sul e distrito de Viseu. Pelos seus caminhos percorremos o PR1 - Rota de Manhouce, conhecemos algumas das suas aldeias e tivemos um vislumbre das riquezas naturais do Maciço da Gralheira.

O acesso a Manhouce pela Serra da Freita

Vaca da raça Arouquesa - Manhouce

A nossa equipa foi para este local, subindo a Serra da Freita, passando perto da aldeia de Albergaria da Serra e da Castanheira, terra das pedras parideiras. Adoramos este caminho pelas suas imensas vistas, num planalto semeado de doridos penedos e com o fundo oceânico invadindo o azul celeste.

Leia também: Viagem à Pré-História e fragrâncias da Serra da Freita

História de Manhouce | Pelo coração do Maciço da Gralheira*

É no extremo ocidental do concelho de São Pedro do Sul que se encontram as terras altas de Manhouce, em pleno Maciço da Gralheira. Nesta região montanhosa, com um passado muito antigo, encontram-se vestígios arqueológicos que atestam povoamentos do Neolítico, da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e do período Romano. Já o topónimo Manhouce, parece advir do termo manho (terra inculta, baldio) ou de uma variação de amanhouce (terra amanhada).

O começo do percurso

Capela de Manhouce

O percurso começa junto à escola primária e segue depois em direção à capela, neste local aproveite para subir à torre e ver os sinos que marcam a vida dos povos, construídos em 1951, por E. M. Costa – Rio Tinto - Porto. Depois siga as marcações que estão bem implantadas, para conhecer as aldeias e ver pastores apascentar as suas ovelhas e cabras. Não se assuste se der de caras com o gado de raça arouquesa, que por aqui se alimenta livremente. Há locais onde têm cancelas que delimitam as áreas de pastagem e que tem indicação que devem ser mantidas fechadas.

A meio da manhã os céus ofereceram-nos uma cacimba persistente, que não desdenhamos e deu-nos uma nova forma de caminhar e fotografar, só tivemos que vestir os impermeáveis.

Descrição do Percurso*

O percurso parte de Manhouce rumo às paisagens de altitude do Maciço da Gralheira, a noroeste. Segue pela EM612 até se escutar o enérgico som da água. A montante da ponte rodoviária observa-se a Ponte Romana da antiga Via Cale; a jusante, a magnifica garganta da ribeira de Manhouce, com um antigo moinho e sua levada. Adiante, descobre a ribeira da Vessa, na qual se encontra o Poço da Silha, e a sua frondosa galeria ripícola.

À medida que vai subindo, os carvalhos vão desaparecendo e dando lugar aos pinheiros até, eventualmente, um enorme caos de blocos graníticos assumir as responsabilidades paisagísticas, criando panoramas verdadeiramente inspiradores e, nos dias frios, cortantes. Nesta zona de altitude é comum aparecerem as ágeis vacas Arouquesas. Estamos em zona do lobo ibérico e de aves rapinas, onde sempre há algum animal atento aos acontecimentos.

O percurso parte agora à descoberta das várias aldeias de altitude do Maciço da Gralheira, com as suas arquiteturas vernaculares em granito e os cenográficos socalcos agrícolas. A água escorre um pouco por toda a parte, pelos caminhos e pelas encostas. 

As aldeias do percurso

Por este caminho irá passar pelas aldeias de Gestosinho, Bondança, Salgueiro, Malfeitoso, Lageal e de novo Manhouce. Estes são típicos lugarejos onde o tempo chega atrasado e as pessoas olham com desconfiança para os forasteiros, quando as encontramos nas demandas de criação de gado, amanhar a terra nos socalcos das veredas montanhosas, a puxar a água nas levadas ou afazeres domésticos. Não se vê crianças nem a juventude da terra, os seus pais foram embora para ganhar a vida e regressam para matar saudades com os seus carros com matriculas francesas, suíças ou luxemburguesas.

Dados sobre o percurso*

Ponte de partida/chegada: Escola primária de Manhouce;

Distância: 14,3 Km;

Rota: Circular;

Duração: 3h30;

Grau de dificuldade: média/moderada;

Acumulado: 736 metros.

Cultivo em socalcos

Cultivo em socalcos*

O cultivo em socalcos é uma ancestral técnica agrícola, também designada de cultivo em terraços, empregue em terrenos de elevada inclinação. Utilizada pelos habitantes das aldeias do Maciço da Gralheira, proporciona hoje paisagens agrícolas únicas, autênticos exemplos da capacidade de adaptação do ser humano aos mais desfavoráveis meios. Os socalcos eram construídos através do parcelamento de rampas niveladas. Primeiro escavavam-se os solos, depois deslocava-se as terras e, finalmente, estabeleciam-se os aterros ou taludes onde então se cultivava.

Destaques do percurso

Neste percurso destacamos as aldeias, a ribeira de Manhouce, calçada romana, o Rio Teixeira, Ponte Romana e o Poço da Silha. Embora não faça parte deste percurso, no verão não deixe de visitar na aldeia da Sernadinha ali perto, o Poço Negro, uma das cascatas e lagos mais bonitas de Portugal e que rivalizam com as do Gêres, onde já passamos um maravilhoso dia de verão e fizemos uma reportagem.

Leia também: Poço Negro | Uma cascata de águas cristalinas

Ponte Romana de Manhouce

Ponte Romana de Manhouce*

A Ponte de Manhouce, construída pelos romanos entre os séc. II a.C. e o séc. I d.C., integrava a Via Cale, a Estrada imperial que ligava Emérita Augusta (Mérida) a Bracara (Braga), com passagem por Viseu. Uma via que adiante na História ficaria aqui conhecida como estrada dos almocreves, os itinerantes comerciantes que da Idade Média ao séc. XX ligaram gentes, culturas e territórios com as suas histórias e mercadorias.

Em termos arquitetônico é uma ponte de arco simples de volta inteira, que assenta diretamente no alicerce da rocha emergente do rio.

Fauna e Flora*

As florestas são, no vale do Teixeira, exuberantes. Nelas podemos encontrar as raras borboletas tigrada-das-florestas e apatura-pequena, os chapins, o dom-fafe, o pica-pau-malhado-grande e o azevinho.

Junto à linha de água são frequentes o lagarto-de-água e a salamandra-lusitânica e, nas turfeiras de montanha, o narciso-das-turfeiras marca presença.

Entre os mamíferos, destacam-se os morcegos cavernícolas encontrados nas Minas das Chãs (morcego-de-ferradura-grande, morcego-de-peluche), a toupeira-de-água e o lobo-ibérico, espécies de conservação prioritária para a Europa.

Rota da água e da Pedra | Montanhas Mágicas | Poços de Manhouce*

Os poços de Manhouce localizam-se no troço mais alto do rio Teixeira, onde abundam as quedas de água e os poços ou piscinas naturais. O Poço Negro no rio Teixeira, os poços da Cilha e da Barreira na ribeira da Vessa, e o poço da Gola na ribeira de Manhouce, são alguns dos mais conhecidos e frequentados, e todos eles foram esculpidos na rocha dura pela força das águas. Muitos destes poços são precedidos de cascatas, o que os torna pequenos pedaços de paraíso que surpreendem pela sua beleza e enquadramento.

Rio Teixeira*

O rio Teixeira, considerado um dos mais bem conservados rios da Europa, é também um dos mais belos rios de montanha, com vales apertados, e uma paisagem escarpada, deslumbrante, que combina harmoniosamente os tons verdes da vegetação com os tons ocre da rocha polida da erosão.

Montanhas mágicas: Linha F – Freita*

Cantares de Manhouce

As cantigas de Manhouce | Uma ponte entre o passado e o presente*

As cantigas de Manhouce são uma das peças que formam o rico e diversificado mosaico de cantares do território português, amplamente investigado e partilhado por etnógrafos e folcloristas tão celebres quanto Armando Leça, Artur Santos, Michel Giacometti ou Fernando Lopes-Graça.

Saiu das ruas de Manhouce para todo o País aquando do célebre concurso, “A aldeia mais portuguesa de Portugal”, de 1938, lançado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, numa tentativa de reunir e nacionalizar algumas das muitas portugalidades de Portugal. Manhouce não saiu vencedor, mas o seu canto ficou na memória.

Desde 2020 decorre um processo de candidatura desta expressão musical a Património Cultural Imaterial da Humanidade, apoiado pela Universidade de Aveiro e, claro, pelos seus atuais intervenientes: o grupo As Vozes de Manhouce; o Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes de Manhouce; o Rancho Folclórico de Manhouce; e figuras chave como Isabel Silvestre e Mestre Silva, entre outros.

Um canto a três vozes*

Quando o jazz era considerado uma forma de expressão musical inferior, Ígor Stravinsky, um dos mais determinantes compositores da modernidade chocou o mundo ao afirmar aos quatro ventos que o estilo era imensamente mais complexo que a música erudita europeia da época. O mesmo se pode pensar em relação às cantigas ou modas de Manhouce.

Nascidas de uma sociedade agrária tradicional, que lutava pela sobrevivência e habitava longe dos deleites musicais das metrópoles, revelam-se de uma complexidade difícil de entender para os não acostumados às partituras musicais.

Canto polifónico a três vozes, dividia-se em: voz de baixo (a que canta a melodia mais grave); raso (a que se sobrepõe fazendo intervalos de terceiras paralelas com a voz mais grave); e riba (a que faz intervalos de quintas paralelas com a voz de baixo).

As cantigas*

O repertório destas cantigas é estrófico e as vozes entram na música sucessivamente, em patamares, pausando sempre na penúltima sílaba do ultimo verso com uma prolongada suspensão, às vezes pontuada com apupos.

Ó minha Pombinha Branca

Ó minha pombinha branc´á á!
Olh´ó caçador na serr´á, á!
C´uma espingardinha dóiro, á,á!
Onde dá ponto não err´á, á!

Ó minha pombinha branc´á á!
Onde queres quéu te lev´á?
Levam´á Serra da Estrel´á, á…
Quero ver cair a nev´á, á.

Ó minha pombinha branc´á á!
Onde vais fazer o ninho´á, á?
Vou á Serra da Ouress´á, á.
Ao mas alto pinheirinho´á, á.

 

Fonte: Câmara Municipal de São Pedro do Sul

Galeria de fotos

 

Vídeo sobre Manhouce

 

Lida 1187 vezes

Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

Itens relacionados

Aprenda como se ensinava no Museu Escolar Oliveira Lopes

A história dos irmãos Oliveira Lopes de Válega que construíram uma escola

Esta é a história de dois irmãos do Cadaval – Válega que no começo do século XX, resolveram combater a expensas próprias o analfabetismo e mandaram erigir uma escola na sua terra que marcou tantos homens e mulheres e que comprova a importância do saber para elevar o ser humano. Naquele tempo não havia ensino obrigatório e universal, existiam poucas escolas, mestres e os alunos andavam desnutridos, mal vestidos e calçados.

Na sessão camarária de 29 de Janeiro de 1908 foi presente um ofício do subinspector escolar José de Castro Sequeira Vidal comunicando que José de Oliveira Lopes e seu irmão Manuel José de Oliveira Lopes, do lugar do Cadaval, da freguesia de Válega, ofereciam-se para custear todas as despesas com a construção dum edifício para as escolas oficiais e habitação dos respetivos professores dessa freguesia, pelo que pedia a cedência gratuita do terreno necessário para aquele construção que, concluída, seria oferecida ao Estado pelos citados beneméritos.” Lamy, A. (1977). Monografia de Ovar - volume 2 (1st ed., p. 376). Ovar [Portugal].

Vereda do pastor percurso pedestre oculto da Serra da Freita

Pelo percurso pedestre do PR3 – Vereda do Pastor - Arões - Vale de Cambra, o Ondas da Serra foi conhecer as aldeias mais icónicas da encosta sul da Serra da Freita, Covô, Agualva e Lomba. Nesta caminhada ainda passamos por duas povoações já abandonadas de Porqueiras e Berlengas. Este trilho é muito rico em termos arquitetónicos, naturais, fauna e flora, onde podemos apreciar um núcleo composto por 15 canastros ou espigueiros, duas bonitas cascatas, luxuriantes ribeiros e belíssimas paisagens de montanha. Do alto das suas serranias pode-se observar a linha costeira que é coberta ao raiar da aurora e crepúsculo por uma envolvente neblina que é suplantada pela altitude, escondendo as riquezas dos horizontes e fundos dos vales.

Cabril Gerês o que visitar, surpreenda-se com a sua natureza

A freguesia de Cabril pertencente ao concelho de Montalegre, região de Trás-os-Montes, sendo ainda uma jóia resguardada do Parque Nacional Peneda-Gerês. Situada no interior profundo é descrita como selvagem pelos seus ilustres moradores, possuindo riquezas culturais, naturais e arquitectónicas que fascinam quem as contempla.

Para sentir Cabril falamos com um autarca, empresário e historiador locais, que demonstraram o seu empenho pelo seu desenvolvimento, defesa e promoção. Nós amantes das serranias e graníticos penedos, ficamos enamorados pela Surreira do Meio Dia e beleza desta região. Neste artigo esperamos que as pessoas despertem para a conhecer e a respeitem quando a visitarem.