O Vale Mágico Vale de Cambra
quinta, 17 maio 2018 21:12

O Vale Mágico Destaque

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“… cercado de montanhas de formas extravagantes, não é fácil descortinar em Portugal outro mais grandioso e espectacular. Quase não tem planos.

A terra é verde e o céu é azul; é tudo verde e azul com raras pintas brancas do casario, que mais do que moradias de homens parecem janelas da própria paisagem.

Nas noites de luar, quando o grande balão de oiro surge na lomba das montanhas, o vale enche-se de magia, dum sortilégio que paira desde os píncaros longínquos às águas sussurrantes do Caima. De manhã é o milagre, todos os dias há um milagre de luz sobre a terra quando o sol nasce em Vale de cambra.

(Ferreira de Castro)

O Vale MágicoA cidade do Vale visitada pelo Ondas da Serra com o vislumbre de Ferreira de Castro a dar o mote para a realidade atual é perfeito para se melhor entender o epíteto de ‘vale mágico’ que Vale de Cambra orgulhosamente ostenta.

Quando se chega ao ‘Vale’ há uma sensação visual imposta pelas ‘extravagantes montanhas’ de Ferreira de Castro. Basta olhar em redor!

Começamos a descoberta com ida aos Paços do Concelho. Este edifício está situado em pleno centro e não passa despercebido! Lá encontramos o posto de Turismo e é onde este roteiro pela cidade inicia. Aí descobrimos e partimos ao ‘Walking Tour de Arte Contemporânea Vale de Cambra’ - nome com a Língua de Shakspeare e de Camões em simultâneo, o que não deixa de ser curioso e comum.

Este ‘Walking Tour’ propõe uma rota que atravessa a cidade num circuito de 4,0Km - com sensivelmente 1h30m de duração - pelos locais onde se encontram obras de arte de diversos artistas e todas elas com motivos distintos entre si, como que concretizando o ajuste à própria envolvência citadina a qual Ferreira de Castro vivenciou, mas em realidades muito díspares desde logo pela quantidade de edifícios que nos tentam ofuscar a paisagem às mãos do homem que deixa de escutar o que a história certamente lhe diz para respeitar.

A primeira obra de arte sugerida encontra-se junto ao edifício dos Paços do Concelho e dá pelo nome de ‘Jardins Suspensos’ - a sua localização vem realçar o simples, o belo e o histórico do seu edifício.

Na viagem até ao próximo ponto encontramos a rotunda de Santo António com estátua a condizer. Estrada fora, a subir ‘… quase sem planos’ - parafraseando Ferreira de Castro - a caminho do Tribunal onde o trajecto é já a descer... espera-nos ‘Fio de Prumo’, escultura que nos dá interessante visão da justiça pela sua inusitada construção.

Logo alí ao lado é a biblioteca onde residem mais dois ‘spots’ do tour (o edifício está em remodelação e sem acesso ao público)… e mais abaixo nova rotunda, esta ostentando o nome da escultura que tem no centro, ‘Milénio’ - a imensidão visual que este local proporciona é de realce.

O trajeto citadino até ao próximo ponto de arte leva-nos a passar pelo seu Santuário, situado também no centro da cidade e que pela sua arquitetura exterior não passa em claro. Os seus recortes arquitetónicos como que são acrescentos de pincel sobre a paisagem descrita por Ferreira de Castro.

Do lado oposto da rua temos novo vislumbre arquitetónico ao repararmos na capela que se esconde por entre as ‘árvores de passeio’ – e que acentuam a sua cor, o seu contraponto e fusão com as montanhas em fundo - é a Capela de St.º António, cuja rua culmina na rotunda do início da nossa narrativa.

Desviamo-nos um pouco da rota do ‘Tour’ mas por querermos, somente, ver a capela mais ao perto, conhecer o local, os seus arruamentos e por quem lá passa. Descobrimos que é uma das zonas mais seculares de Vale de Cambra, que ostenta estórias e edifícios que comprovam a passagem do tempo e onde estar ou simplesmente por lá passar traz algo de ‘je ne sais quois’ que se sente entre as pessoas que por ali se cruzam.

A paralela «sul» à rua de St.º António é a rua de Domingos Fernandes Nogueira (Prior da Lapa) onde se encontra o Brasão da cidade ‘plantado’ na calçada Portuguesa, que enfeita um jardim central com um lago, uma fonte rodeada por bancos de jardim e candeeiros a preceito. “É a rua que tem dos edifícios mais bonitos e antigos da cidade” assim nos dizia Alcinda Maurício que nos interpelou muito satisfeita por estarmos a contemplar e fotografar tais ‘lembranças’ - e ainda nos incentivou espontaneamente a fazê-lo. Ela, tal como o seu marido – António Nobre – são de Vale de Cambra e já aqui brincavam desde os anos 70, também pela altura em que Ferreira de Castro explanava toda a sua visão sobre a magia do vale. Gostamos de pensar que talvez seja apanágio de quem cá viveu retratar de forma vivida essas lembranças de tempos idos.

Por esta altura temos metade do ‘Tour’ completo e decidimos fazer uma pausa para contemplar calmamente a paisagem. Situada no centro, ladeada pela igreja e a capela, encontra-se um café de edificação recente que tem uma esplanada que nos permite esse deleite visual.

Chegado o almoço, optamos por um dos muitos restaurantes da cidade e o nosso repasto, uma iguaria muito especial – ‘Ossos de Assuã’.

Retemperadas as energias voltamos ao nosso trajecto, que agora nos leva para fora do centro da cidade rumo a oeste, dando logo aí de caras com uma enorme escultura, situada em frente ao centro de camionagem de Vale de Cambra. Toda ela, desde a sua localização, o ponto de visualização (este «» oeste) trasmite uma sensação de movimento e tem, sem dúvida, um nome a preceito:  ‘Caminhante’.

Rumando a norte iremos encontrar no limite da cidade o seu parque urbano (Parque da Cidade de Vale de Cambra Dr. Eduardo Coelho) com cerca de 24 hectares! Com uma entrada convidativa avistamos uma horta onde um grupo estava ocupado com as suas plantações. Fomos convidados a entrar e a conhecer o espaço, o Centro de Educação Ambiental de Vale de Cambra. Este espaço leva a cabo várias iniciativas na perspectiva da criação de uma maior simbiose entre a população, a cidade, a tradição e cultura das suas gentes e terras.

Da horta temos a visão distante das esculturas contemporâneas que estão ‘plantadas’ pelo parque e a sensação que se obtém deixa adivinhar algo que fará o deleite daquele que se prestar a simplesmente observar e sentir. A interacção visual com o meio ambiente envolvente e a deriva dos sentidos de cada um, dá a consistência à percepção da sua própria concepção e vontade de existência de uma obra que foi pensada pela autarquia para todos os Valecambrenses.

Da visão de uma gigante ‘Bolota’ que pousa naturalmente inclinada na paisagem, à escultura que aponta aos céus e aos deuses - ‘Hérmes’, aos pássaros que sobrevoam a paisagem e ‘aterram’ no parque de passagem por cima de uma obra que os homenageia - ‘Pássaro’, é, sem dúvida, uma ‘caminhada’ que preenche o Tour e faz jus à sua nomenclatura.

Ficamos por aqui nesta viagem na certeza de perceber melhor uma cidade e os seus habitantes. Por tudo o que vimos - e sentimos! - pensamos que o caminho por onde hoje apontam os seus responsáveis seja o de um maior encontro às raízes culturais e históricas, mostrando respeito e honra ao vale a que presidem e apelidam de mágico, o que certamente relembra às suas gentes o orgulho na terra de onde se sentem naturais.

... e, citando Ferreira de Castro: “...todos os dias há um milagre de luz sobre a terra quando o sol nasce em Vale de cambra.

 

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Autor

Rui Sousa

A Natureza inspira-o. Som, imagem, aroma e sensações ‘... aquela parte do mundo onde naturalmente podemos simplesmente ser.’ Quer estar onde a vida e cultura de um povo faz parte do que a rodeia, onde vivenciar essa realidade faz sentir a saudade dessas memórias onde vive a história... onde podemos estar.

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