Pescando na Ria com “António Silva” Pescador António Silva e sua mãe Beatriz Amador

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Numa viagem de bicicleta que fizemos por terra da Murtosa na tarde do dia 27 de abril, fomos encontrar junto às margens da Ria de Aveiro no Bunheiro, uma família a trabalhar à volta do seu barco de pesca “António Manuel”. Como somos curiosos fomos ver o que estavam a fazer e se nos queriam responder algumas perguntas. Aceitaram-nos muito bem e depressa se estabeleceu um dialogo caloroso, com fotografias pelo meio. O local onde trabalhavam no interior da embarcação, a posição dos barcos, as cordas entrecruzadas e a luz não eram os melhores, mas nem sempre é possível trabalhar com as condições ideais, mas achamos que o fundamental foi conseguido.

Regressando a narrativa o homem e a sua mulher já tinham ido pescar e limpavam as redes dos caranguejos que ficam emaranhados e as estragam com garras. Quando encontravam os buracos maldiziam os crustáceos, que eram retirados de má vontade e lançados às águas. No cais uma idosa, de nome Beatriz Amador, vestida de tons escuros como é habito e sentada num pequeno banco de madeira observava os trabalhos, por vezes dava umas pequenas ajudas que as suas forças e vontade permitissem.

A pequena mulher sempre atenta, já não tinha idade para se aborrecer com aqueles problemas. Quando lhe quisemos tirar uma fotografia, disse com um bonito sotaque que não queira, que era feia, mas ficou feliz quando a contradissemos e dissemos que era bonita. Só nos deixou tirar fotografias depois de se arranjar, escolher a melhor posição e ter tirado o seu chapéu para parecer melhor e exibir os seus fartos cabelos brancos de muitas décadas e canseiras passadas.

Aqui fica a conversa com o filho da idosa, que nos falou um pouco da sua vida e nos elucidou sobre alguns dos problemas que afetam os pescadores da ria e do seu assoreamento.

Pode dizer-nos o seu nome, idade e como se tornou pescador.

Chamo-me António Silva, tenho 50 anos de idade e sou daqui da Murtosa, do Bunheiro. Sempre trabalhei na pesca e algum tempo na construção. Tenho estas duas embarcações a “Clementina” e “António Manuel”.

Eu trabalhei na construção desde os catorzes aos dezassete anos, depois foi para um barco para Africa do Sul, aqui da Gafanha. Depois deixei aquilo e vim aqui para a pesca. Também estive uns anos fora emigrado. Depois regressei e como tinha dois barcos comecei novamente na pesca.

De que tipo são estes dois barcos, existe alguém que ainda os construa e conserte?

São bateiras. Sim, ainda existem quatro mestres, um na Torreira que é o Zé Rito, há o Felisberto, um que só conheço apenas por Pardaleiro e o Arménio, estes três de Pardilhó. Vivem todos perto uns dos outros e têm para cima dos 50 anos.       

Neste momento está a chegar da pescar?

Não, cheguei eram quase duas horas e a minha mulher foi levar o peixe à lota. Lá está, tantas redes para apanhar só seis quilos e meio de peixe.

O que é que saiu hoje?

Chocos. Estas redes são só para os chocos. Nos temos que safar as redes para as tornar a largar (retirar os caranguejos que estão amarinhados nas redes e as danificam). Provavelmente hoje já não as vou largar. Os caranguejos fazem um prejuízo enorme nas redes, cortam as redes. A pesca está praticamente de rastos, embora seja uma maneira de falar. O que isto era há uns anos e o que isto é agora. Tudo subiu, redes, gasolinas e não se ganha nada. Há sete, oito, dez anos atrás com as mesmas redes apanhava-se 20 quilos de peixe. Já foi três vezes lá baixo às cozinhas (perto de São Jacinto onde existe um parque de merendas) fazer a baixa mar e só tiro seis ou sete quilos e não passa disso. Não dá, a pesca tem tendência acabar.

Porque é assim, foi um inverno muito fraco, não havia berbigão e o pessoal viu-se à rasca para ganhar algum e ninguém faz nada pelas pescas. A Direção Geral das Pescas cria leis e mais leis, algumas de Bruxelas e não veem a situação que está aqui na ria. Estes pescadores têm tendência para acabar, porque as pessoas têm quarenta e cinquenta e tais anos, daqui por quinze anos já não há pescadores. A malta nova não quer saber disto porque não veem futuro.

Com a sua experiência quais são os principais problemas dos pescadores na ria.

Não haver organização por parte das grandes entidades (parou de falar para exibir um grande buraco na rede feito por um caranguejo e que disse dar muito prejuízo). Há quatro zonas de pesca, neste momento só se pode pescar marisco em três.

Havia de haver mais zonas e os preços haviam de ser mais altos. O berbigão é vendido para a fábrica a 0.80 cêntimos, havia de ser pelo menos a 1,00 Euro. O limite por embarcação não deveria ser 200 mas de 120 quilos. A apanha da ameijoa japónica não tem limite, mas deveria ser de 20 quilos. Assim os pescadores tinham a facilidade de fazer na maré 120 quilos de berbigão, que dá cerca de seis sacos e ainda dava tempo de fazer a maré da ameijoa, se não apanhasse os 20 quilos apanhavam 10.

Há zonas que não deveriam estar fechadas só por terem toxinas, mas fechada por ter pouco material (espécies). Deveriam algumas estar fechadas por terem pouco material e só abrir quando recuperasse. Para preservar as espécies e não só, em todas as embarcações que estão a pescar com 200 quilos, se fossem só 120, a apanha do berbigão mantinha-se todo o ano. Ou seja, as quantidades deviam diminuir e o preço ser aumentar.

Por outro lado, também há muita clandestinidade e isso é um dos graves problemas. As autoridades fiscalizam mais as embarcações que têm documentos e tudo em ordem, como é o meu caso, que estão ali dentro da proa. Porque se nos formos multados e não pagarmos eles levam a embarcação, os outros dá muito mais trabalho.

O que tem a dizer em relação ao assoreamento da ria, está melhor ou pior?

Isso é mais um problema, segundo ouço falar eles vão desassorear a ria, mas só em alguns canais, desde Ovar a Mira. Agora é assim, eles deveriam ouvir os pescadores, porque nós sabemos o que realmente deveria ser feito. Eles fazem pela ideia deles e de maneira errada. Ainda há pouco tempo, falei com uns senhores que andavam a tirar medidas aqui com um aparelho, eu nem sabia para o que era e eles disseram que eram por causa das dragagens da ria e para trazer para aqui as lamas e as areias. Eu disse-lhes que era mais um problema que estavam a arranjar. Se eles lançarem as lamas aqui para o cais da Bestida ou mais abaixo, se der um bocado de vento de oeste ou noroeste, a areia e lamas que colocarem voltam novamente para a ria.

São situações onde eles gastam o dinheiro malgasto. Ouvi também dizerem que iam fazer um  canal do cais da Bestida ao cais da Torreira, isso é dinheiro malgasto, a corrente enche para norte e vaza para sul. Com vento norte ou vento sul, esse canal começa a entulhar e em poucos anos volta assorear. Aqui temos umas correntes enormes, isso não tem haver com as dragagens.

Explique-nos uma coisa se souber, até há poucos anos não existia esse problema do assoreamento da ria, porque é que acontece agora?

O problema do assoreamento da ria tem haver com as obras da barra, antes das últimas obras da barra que fizeram no molho norte, a barra estava mais aberta. Eles aumentaram a ponta do molho norte em cerca de 200 metros, fizeram uma volta para dentro e apertaram a barra. Isso fez aumentar a corrente e trazer mais areia para dentro. Prejudica tanto o turismo como a própria pesca, porque ao mesmo tampo que trás o peixe para dentro também o leva para fora.

As obras da barra da maneira que foram feitas só vieram prejudicar isto que agora é quase tudo areia. Conheço duas pessoas de São Jacinto que conhecem a barra, um já está reformado que me disseram que quando começaram aqui a trabalhar andavam com barcos de remos, só mais tarde vieram os motores, hoje ninguém consegue andar com remos com os fortes correntes.

Eles explicaram-me que antes destas obras, as motoras (barcos) que vinham do mar entravam pelo molho norte sem nenhum problema, mesmo com as marés vivas, agora não, as motoras para entrarem tem que fugir para o molhe sul, a corrente é tanta que eles não conseguem entrar, dizem que por vezes chegam a dez nós.

Pode explicar-nos um pouco do seu dia norma de trabalho.

A vida de pescador não tem horários, está dependente das marés e tem uma grande carga horária que nada tem haver com um trabalhador duma fábrica que faz as suas oito horas e se vai embora. Tem vezes de fazermos dez, doze ou catorze horas e às vezes quase sem lucro nenhum. 

Muito obrigada e desejamos que tenha boas pescarias.

Nota final: Um dos elementos da nossa equipa na sua adolescência, passou muitos dias de verão na praia do Areinho, onde existia uma plataforma com um trampolim e a profundidade era a suficiente para dar mergulhos. Há muitos anos que a mesma foi retirada talvez por causa do assoreamento e evitar que alguém se ferisse com gravidade.    

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Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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