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O que visitar na Serra de São Macário onde viveu o ermita Capela de São Macário - São Pedro do Sul Ondas da Serra

O que visitar na Serra de São Macário onde viveu o ermita Destaque

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A Serra de São Macário em São Pedro do Sul, parece ter sido esculpida para intrépidos exploradores, que se alimentam de cruas rochas e agrestes penedos. Subindo estas montanhas irrompemos pelos céus, ziguezagueando pela estrada do inferno. Nestes castelos encontramos mitos populares de força e inspiração tamanhas. Aqui em verdes prados fomos conduzidos até à gloria do senhor e descansamos nas águas refrescantes das suas aldeias. Vamos agora refugiar-nos como o santo, fugindo dos nossos pecados, longe de vista humana e pedir absolvição pelos nossos padecimentos. 

Serra de São Macário – Cadeia montanhosa que atinge os 1054 metros de altitude

Serra de São Macário - São Pedro do Sul

Ficamos enamorados pela Serra de São Macário, quando fizemos o percurso pedestre, PR4 – Rota da Cabra e do Lobo, em São Pedro do Sul. Regressamos novamente para prestar homenagem ao Santo que por aqui viveu e se penitenciou por um negligente crime que cometeu. Na primeira viagem nem tudo vivemos, nem nas próximas tudo veremos, mas todas as vezes vislumbramos o céu. A cada viagem etapas são cumpridas e novas germinam a cada pedra que se levanta. 

“A serra de São Macário atinge os 1054 metros de altitude e constitui um magnífico ponto de observação das serras e vales das Montanhas Mágicas® a Este e Norte, e as serras do Caramulo e da Estrela a Sul. É de salientar a vista que se tem do vale do Deilão, delimitada pelas cristas quartzíticas que terminam precisamente neste local e que se prolongam desde Valongo, rasgando a terra com relevos abruptos ao longo da sua passagem.

Estes quartzitos são ainda testemunhas da vida que ocorreu nos oceanos há cerca de 480 milhões de anos, tendo ficando gravado nas rochas as marcas de trilobites e outros animais que por ali andavam (icnofósseis). No cimo da serra, são ainda frequentes dobras resultantes das mesmas forças que levantaram e moldaram estas montanhas.“ 1

Monte de São Macário – Capela e Gruta de São Macário

Gruta de São Macário

Começamos esta visita subindo o Monte de São Macário, onde admiramos os infindáveis horizontes e visitamos a capela e gruta de São Macário. A mestria do povo não tem limites e com devoção e profundo sentido estético, aprisionaram a capela no meio de austeros penedos. Nas traseiras uma gruta assinala que ali se mortificou o ermita, bem ao lado duma pequena livraria de rochas, dispostas verticalmente à espera que amantes da literatura as leiam avidamente.

Onde param os icnofósseis do Monte de São Macário?

Aqui foi colocado um painel da Linha A – Arada, geossítio n.  A13, referente à Rota da Água e da Pedra, que informa que ali existe uma laje com icnofósseis e rochas com dobras. Nós bem tentamos descobrir estes locais sem sucesso e gostaríamos que as indicações fossem melhoradas para os amantes da geologia as poderem estudar.   

“O monte de São Macário integra a Serra da Arada, com 1052 metros de altitude máxima, ficando localizado a cerca de 10 km a norte de São Pedro do Sul. O seu nome com origens sagrada foi inspirado na vida do Santo São Macário. A Lenda de São Macário: "Diz-se que S. Macário levou uma vida boémia e extravagante antes de ser santo. Gostava de festas e de caçar, mas num acidente matou o pai com uma seta e nunca mais recuperou. Tornou-se um eremita que se dedicava à oração e à proteção dos animais." 3

São Macário | Património Histórico e Cultural

Lenda de São Macário – Homem matou pai e refugiu-se na serra

Capela de São Macário

“A lenda de São Macário relata a história de um homem que, por acidente, matou o seu pai vindo a refugiar-se, até ao fim dos seus dias, no cimo da serra, onde se alimentava de ervas e gafanhotos e se penitenciava dia e noite, ganhando assim fama de santo. Foi por isso erguida no local a ermida de São Macário e, mais tarde, outra capela, sendo as duas muito visitadas aquando da romaria a São Macário que ainda hoje se celebra no fim do mês de julho.” 1

Alto de São Macário - Biodiversidade

“O alto de São Macário é um local extremo, com espécies muito característica de montanha como o saramago-das-rochas e o pólio-das-rochas, endemismos portugueses que crescem nas fragas das montanhas do centro e norte de Portugal; já o melro-das-rochas alegra o planalto com as suas cores vidas e o alho-amarelo aproveita as pequenas acumulações de terra entre as fragas para crescer, pincelando de amarelo vivo o cimo agreste destas montanhas. Junto a Macieira, há ainda um notável conjunto cem castanheiros centenários, com mais de cinco séculos cada um, provando assim a ancestralidade da ocupação destas terras.” 1

O que ver na Rota da Água e da Pedra

Pólio-das-rochas

  1. Icnofósseis
  2. Melro-das-Rochas
  3. Saramago-das-Rochas
  4. Alho-amarelo
  5. Pólio-das-rochas

Rota da Água e da Pedra - Linha A - Arada

  • A1 – Poços da Ponte Teixeira

  • A2 – Poço Azul

  • A3 – Pedras Boroas da Landeira

  • A4 – Moinhos do Pisão

  • A5 – Mariolas da Arada

  • A6 – Turfeira da Fraguinha

  • A7 - Minas de Rio de Frades

  • A8 – Poços do Paivô

  • A9 – Minas de Regoufe

  • A10 – Lagoas de Drave

  • A11 – Portal do Inferno (Nesta visita)

  • A12 – Livraria da Pena (Nesta visita)

  • A13 - São Macário (Nesta visita)

  • A14 - Vale do Deilão (Nesta visita)

 Pena Aldeia de Portugal® – São Pedro do Sul

Aldeia da Pena - Rosa Maria - Diretora do Ondas da Serra

“A aldeia da Pena faz parte da rede de Aldeias de Portugal®”, e é um lugar com casario de xisto e ardósia bem preservado, aninhado no regaço apertado do vale, e envolto por leiras de lameiros e grandiosas fragas."  1

Lenda do morto que matou o vivo

“A lenda do “Caminho do morto que matou o vivo” conta a história do caixão que, ao ser transportado para o cemitério de Covas do Rio pelo carreiro abaixo, resvalou, levando com ele um dos carregadores.”  1  

Esta lenda está bem presente para quem percorrer o caminho entre as Aldeias da Pena e Covas do Rio. Por entre caminhos escondidos, onde suspiram espíritos malignos, por vezes estrangulados, ou sob ameaça de mortíferos penedos, irromperam das terras fantasmagóricos espantalhos, de todas as nacionalidades, que para os espíritos mais suscetíveis causaram porventura calafrios e olhares apreensivos. Apesar destes medos esperemos que isso não os impeçam de calcorrear este trilho, que passando pelo Ribeiro e Livraria da Pena, têm tanto de belo como de mortífero, sem razão fundamentada e assente no caracter mitológico do local, como diz o povo uma no cravo e outra na ferradura.

Ovelhas atrevidas da Aldeia da Pena

Ovelhas na Aldeia da Pena

Saímos da Aldeia da Pena rumo à livraria da Pena, quando nos confrontamos com um rebanho de ovelhas a ruminar descansadamente junto à ribeira com o mesmo nome. Paramos para caçar fotos, tentando captar os quadros mais espontâneos dos animais, mas para nossa surpresa irromperam em nossa direção e vieram prostrar-se diante da objetiva, esperando quiçá uma moedinha ou petisco, habituadas que estão aos alegres forasteiros. Tentaram fazer-se entender balindo na nossa direção, mas infelizmente não as compreendemos, que bichos simpáticos, só não as beijamos porque o bode estava capaz de nos abalroar. 

A ovelhinha sem maneiras à mesa

Ovelhas na Aldeia da Pena

Os animais e humanos partilham mais do que as pessoas pensam, até as suas crias, como aquela ovelhinha que comia à mesa sem maneiras e se lambuzou fartamente com terra na focinheira, para desespero da mãe, que ficou desagrada com a fotografia tirada, balindo furiosamente, que impropérios nos teria lançado? E as máscaras minha gente e as máscaras, já ninguém se lembra delas, como se esquece um problema se outro maior surgir.

Parede de Escalada

“A cerca de 500m da Aldeia da Pena, uma pequena caminhada de 15 minutos pelo traçado do PR4 – Rota da Cabra e do Lobo, leva-o à Parede de Escalada e Livraria da Pena e a espetaculares perspetivas para a aldeia, a serra e Livraria.” 1

Livraria da Pena | Estrato quartzítico do Ordovício com 480 milhões de anos

Livraria da Pena

O geossítio A12, Livraria da Pena faz parte da Linha A – Arada, da Rota da Água e da Pedras, das Montanhas Mágicas. Aqui também tivemos dificuldades em identificar o local onde se podem admirar os icnofósseis e que nos pareceu estarem num local não facilmente acessível.

“Basta uma caminhada de 10 minutos para descobrir um dos mais espetaculares acontecimentos geológicos do País, a Livraria da Pena. Nada o prepara para o que encontra após atravessar uma fenda natural na dura rocha quártzica… um vale mágico de vegetação luxuriante, o “Jardim da Pena.”

“A Livraria da Pena é acessível a partir de um caminho antigo justamente chamado “Caminho do morto que matou o vivo”, e que segue ao longo do Ribeiro da Pena até Covas do Rio, num percurso de 3 km bastante abrupto. À saída da Pena erguem-se imponentes fragas dispostas verticalmente que lembram monumentais livros apertados uns contra os outros.

Cada “livro” corresponde a um estrato quartzítico que data do Ordovício, há cerca de 480 milhões de anos atrás, e alguns deles registam a passagem ancestral de trilobites e outros animais nas areias das margens pouco profundas do paleocontinente Gondwana. 1 

Biodiversidade da Aldeia da Pena1

 “Percorridos os campos de cultivo da Pena, abrem-se aqui, numa estreita passagem entre duas fragas rochosas, as portas para um “jardim mágico”. Um vale profundo e luxuriante onde mistérios e lendas se conservam na verticalidade avassaladora das paredes rochosas, encantados pela toada incessante da ribeira de Pena e pelos cantos da avifauna residente. Com um microclima muito particular, húmido e sombrio, são imensas as espécies vegetais que aqui encontraram refúgio e prosperam, das árvores de grande porte aos pequenos líquenes, das flores e fetos aos arbustos.

 “No vale que liga as aldeias da Pena e de Covas do Rio cresce uma grande diversidade de espécies de grande porte, contando-se mais de 20 espécies de árvores e arbustos: azevinho, aveleira, azinheira, sobreiro, carvalho-negral, carvalho-alvarinho, lódão-bastardo, nogueira, loureiro, sabugueiro, choupo-negro, freixo, amieiro, bétula, borrazeira-preta, azereiro, salgueiro, cerejeira, castanheiro, pinheiro, abrunheiro-bravo, sanguinho, pilriteiro e tramazeira formam uma densa floresta que dificulta a chegada da luz ao solo.

Junto ao rio são muitas as espécies que se podem encontrar, como a salamandra-lusitânica e a rã-ibérica. O heléboro, planta rara na região, é aqui frequente e os quartzitos são ainda habitat de plantas rupícola, como os campanários e o pólio-das-rochas.” 1

Umbigo-de-Vénus

Umbigo-de-Vénus - Biodiversidade da Aldeia da Pena

Em cada caminhada interpretativa que fazemos, tentamos sempre identificar algumas espécies da fauna e flora que vamos encontrando e constam por vezes nos cartazes informativos. Nesta viagem destacamos entre outras o Umbigo-de-Vénus e a Erva-besteira.

Erva-besteira

Erva-besteira - Biodiversidade da Aldeia da Pena

A hera que se fez árvore

Hera - Biodiversidade da Aldeia da Pena

Como certas pessoas que querem fugir da sua natureza, uma hera rodeada de árvores, confundida com a sua espécie e alguma solidão, subiu à força de braços pelo penedo, lançando raízes, imitando as "companheiras" e só um olhar apurado nos desfaz o engano. Ela tudo copiou, ramificações, folhas e copa das árvores que a acompanham. Num dia solarengo ou penumbra do luar, até se pode confundir com as suas sombras, caso curioso e por nós nunca visto.

Vale do Deilão – Refugio animal, vegetal e observação do Cosmos

“O vale do Deilão localiza-se no coração das Montanhas Mágicas, num local tão selvagem e remoto que à noite não há quase nenhuma luz artificial, permitindo a contemplação da Via Láctea como raramente se vê. O Deilão é um afluente do rio Paiva que nasce no alto de São Macário, encaixado entre as cristas quartzíticas mais resistentes, coincidentes com a serra da Ameixiosa na margem direita e as livrarias da Pena, Covas do Monte e Fragoselas na margem esquerda.

É um sistema ecológico que ultrapassa um desnível de 700 metros em cerca de 7,5 quilómetros, originando um rio de montanha que no inverno corre cheio e no verão quase seca. Junto a Covas do Rio ocorre um fenómeno geológico muito particular que originou grandes e achatadas Pedras Cebola." 1

Cascata do Rio Deilão - Aldeia da Pena

Cascata do Rio Deilão - Aldeia da Pena

"O rio Deilão é refúgio de muitas espécies protegidas como a salamandra-lusitânica e a toupeira-de-água que aqui encontram condições excecionais para se desenvolver. Nas escarpas das cristas quartzíticas pode-se observar o falcão-peregrino e outras rapinas. Nos quartzitos de Fragoselas podemos observar icnofósseis, rastos fósseis de trilobites com mais de 480 milhões de anos. Na sua proximidade, as pedras agudas rasgam a paisagem, resultado da meteorização das camadas de xisto.

As aldeias de Covas do Rio, Deilão, Campo Grande e Fragoselas marcam uma ocupação ancestral deste vale, com mais de 1000 anos de história. As casas são maioritariamente em xisto com telhados de ardósia, e a ocupação principal é a agricultura e a pecuária.” 1

Covas do Monte – Aldeia de Portugal® – São Pedro do Sul

Covas do Monte – Aldeia de Portuga

Covas do Monte é uma Aldeia de Portugal®, ficando situada a 447 metros de altitude, destacando-se pelo seu casario construído em xisto e campos verdejantes que contrastam com o cinzento vernacular dos montes em redor.

Todas as vezes que por aqui deambulamos para recolher fotos, as cabras surgem como por magia de todos os improváveis recantos, como mosquitos endiabrados. Parecem sempre saber o que fazer e para onde ir, olhando com desdém e desconsideração para os forasteiros, mas não se ausentando fugazmente quando persentem uma qualquer fotografia.

Seguindo indicações do povo desta terra, montamos pelo agreste caminho que sobe para nascente, junto à ribeira para tentar alcançar o Portal do Inferno e Garra. O tempo e claridade foram-se esgotando e não permitiram cumprir este objetivo, tivemos que regressar e ir de carro. Apesar disso ainda deu para apreciar uma paisagem que parece de outro muro, pela sua brutalidade, cinzentismo e sensação de longevidade civilizacional.

Covas do Monte - Entre escarpas das serras de São Macário e Arada

Covas do Monte – Aldeia de Portuga

“Enclausurada entre a aspereza escarpada das serras de São Macário e da Arada, Covas do Monte surge inesperadamente como um oásis verdejante de campos recortados e casas erguidas de xisto. A sua população tirou partido ao longo dos séculos da ribeira que aqui se aplana, depois de se precipitar serra abaixo, quer para fazer girar as mós da antiga azenha comunitária, quer para alimentar culturas de cereais e hortícolas essenciais à sobrevivência.

Enclausurada entre a Serra de São Macário e a Serra da Arada, no vale que dá para o rio Deilão, a aldeia de Covas do Monte poderia passar despercebida como algumas outras, escondidas ou camufladas nestes recantos serranos de infindáveis surpresas e cores. Tal não acontece porque muito antes de nos darmos conta do alinhado casario em xisto coberto com telhados de lousa negra, saltam à vista os verdejantes e viçosos campos agrícolas da povoação, num mosaico recortado pintado de tons verdes e amarelos que mais não poderiam contrastar com a austeridade arbórea destas encostas despidas e dominadas por coloridos arbustos como urze, o tojo, a carqueja ou a giesta.” 1

O rebanho comunitário de cabras de Covas do Monte

Rebanho comunitário de cabras de Covas do Monte

“Hoje com poucos habitantes, a existência de uma antiga escola primária agora restaurante da aldeia, permite-nos imaginar um passado agitado pelo alvoroço das crianças numa aldeia há muito conhecido pelo seu extenso e peculiar rebanho comunitário de cabras que, diz-se, terá contado com mais de 2500 animais, e que, não raras vezes, o saúda durante a sua visita.”  1

Lenda da Cabra que matou o lobo

O isolamento destas terras terá feito o Criador não fixar as regras normais da convivência natural, onde morto mata vivo, cabra mata lobo e estrada tem nome de inferno. A ordem está subvertida, mas quem quer saber disso numa área que de tão isolada conservou a sua alma e selvajaria.

A lenda da cabra que matou o lobo, é uma história tradicional de Covas do Monte, onde um dia uma cabra emboscada por um lobo numa fraga, sem outra solução arrebatou contra ele fazendo-o cair para a morte no fundo do precipício.

Milagre de São Macário na aldeia de Covas do Monte

Um dos atrativos de Covas do Monte é o seu típico restaurante, que funciona na antiga escola primária, explorado pela Associação Dos Amigos De Covas Monte. Neste espaço pode saborear a gastronomia local, apreciar a paisagem em redor e fotografias icónicas desta região.  

Vamos agora transcrever o “milagre” que aconteceu nesta terra e neste restaurante a Camilo de Araújo Correia, cuja história contou no “O Arrais”, de 25 de março de 1999.

“Quanto mais vou entrando no inverno da vida, mais me apuro na procura da paz. Há muito venho fazendo do sábado o meu domingo, a fugir ao próximo, que tudo invade no dia do Senhor.

É no sábado que procuro a terra, um miradouro, um restaurante pouco badalado.

Mas tudo aqui ao pé da porta vai ficando muito repetido, Vejo-me e desejo-me para domingar a meu gosto, sem entrar em competição com o próximo.

Outro dia, soube por um programa da televisão, atento ao Portugal miudinho, que abrira um restaurante da iniciativa da Junta de Freguesia e do entusiasmo da Associação Cultural e Recreativa de Covas do Monte. Mais um restaurante a fazer-me olhinhos de uma paisagem inteiramente nova, pensei, todo contente.

Lá fui no dia 13 de março de 1999. Guardo a data inteirinha como se fosse a de um novo dia santo do meu calendário particular.

Covas do Monte fica em plena serra de São Macário. Na estrada de Castro Daire para São Pedro do Sul, a certa altura, corta-se à direita. Depois do desvio, tudo vai mudando. As terras vão sendo mais espaçadas e mais pequenas. Quando se chega lá do alto, a serra de São Macário oferece-se em toda a sua plenitude.

Montes arredondados ou de formatos caprichosos vão-se perdendo na lonjura. Entre eles, os vales são uma vertigem onde a luz esmorece e o silêncio se adensa. De vez em quando, um afloramento de xisto folheando vem assustar-se à beira da estrada como dentuça de lobo esfaimado.

Depois de muito descermos, aparece lá no fundo um punhadinho de casas conformadas com a solidão, a negrejar no verde de um pequeno lameiro.

Foi a uma velhota que andava nesse lameiro a apanhar espigos que perguntei:

-Não foi aqui que abriu um restaurante há pouco tempo?

-Foi sim, meu senhor, mas ainda não está a funcionar…-respondeu com uma nota de pena.

Senti cair-me em cima toda a serra de São Macário. Mal me refiz, saí dos escombros e resolvi atravessar a terra. Passei por um cão desiludido e um galo em plena crista, até encontrar uma rapariga de sorriso acolhedor. Fechou o sorriso para me confirmar, tristemente, a falta do almoço.

De rabo estendido, resolvi regressar ao carro. No caminho encontrei duas senhoras e um cavalheiro com todo o aspeto de andarem a fazer a minha triste figura.

-Desculpem… vêm para o restaurante?

-Vimos… -respondeu o cavalheiro.

-Está fechado!

-Ohhh!

Resolvemos unir as nossas fomes e entrar no povoado, e ver o que estava visto. No pequeno largo já andava a velhota dos espigos, toda desembaraçada, a convencer quem por ali estava de que era preciso “dar alguma coisa de comer àqueles senhores”.

Não tardou a aparecer o senhor Arménio Martins Pascoal, presidente da Associação, que logo nos abriu as acolhedoras instalações e nos foi informando de que tudo estaria a funcionar brevemente. Entretanto, começou um corre-corre de senhoras, muito suspeito de preparação do almoço.

E o almoço veio a confirmar-se. Com a boa vontade de todas as senhoras apareceram batatas, grelos, salpicões, linguiças, boroa, azeite e vinagre. E trouxeram, até, as suas pequenitas, duas crianças encantadoras como duas florinhas da serra. O vinho correu nos copos e a fraternidade nos corações.

Aquele almoço foi bem um milagre de São Macário ajudado pela boa gente de Covas do Monte” 2

Covas do Monte: Património histórico

“A aldeia de Covas do Monte é uma Aldeia de Portugal® aninhada no vale que dá para o rio Deilão. A aldeia fica no sopé da montanha e oferece um passeio único por entre as suas ruas estreitas e sinuosas e o que aglomerado de casas, quase todas construídas em xisto e com telhados em lousa. Os seus habitantes têm um rebanho comunitário com mais de mil cabras que todos os dias vão pastar ao monte.” 1

Covas do Monte: Biodiversidade flora

“Os afloramentos rochosos são locais muito interessantes para a vida, já que a rocha abriga uma especialização que, ao longo do tempo, origina endemismos, - espécies que apenas existem nestes locais. Este é o caso do pólio-das-rochas, espécie ripicola restrita às montanhas do norte de Portugal que prospera nestes ermos.” 1

Covas do Monte: Biodiversidade e flora ameaçadas

“O lobo-ibérico e a toupeira-de-água são algumas das espécies de mamíferos ameaçadas que vivem nestes vales. Entre as aves, destaque para o altivo falcão-peregrino e para o melro-das-rochas que aproveita a paisagem escarpada para nidificar. Finalmente, podemos aqui observar o discreto escorpião que tem, como território de caça e abrigo, as rochas que caracterizam este local.” 1

Covas do Monte: O que ver

  1. Portal do Inferno e da Garra (Geossítio do Arouca Geopark), alt: 910 m;
  2. Encosta da Serra revistada pelos tons lilás da Urze, alt: 630 m;
  3. Campos de Cultivo de Covas do Monte, alt: 420 m;
  4. Estrada do Portal do Inferno, alt: 960 m;
  5. Ribeira de Covas do Monte, alt: 400 m;
  6. Serra da Arada, alt. máx: 1120 m;

Aldeia de Covas do Rio – São Pedro do Sul

Aldeia de Covas do Rio – São Pedro do Sul

“É a sede da freguesia que engloba os territórios ocupados pelas Aldeia da Pena e Covas do Monte, e a povoação sobre qual nos chegam mais informações sobre o passado distante deste território. Instalada numa encosta defronte da base norte da Serra de São Macário, é recortada pela ribeira de Deilão, que é alimentada pela ribeira de Covas do Rio, e que daqui segue viagem rumo a ocidente e ás águas do rio Paiva.

Diz-se que poderá ter sido construída sobre um primitivo povoamento do período lusitano-romano, embora sejam escassas as evidencias além de alguns registos vestigiais de mamoas feitos por Amorim Girão no séc. XX. Certo é que alguns topónimos deste território são mencionados desde pelo menos os inícios da formação de Portugal, nomeadamente num documento de 1096, no qual Sisnando, um monge de Arouca, faz doação ao mosteiro de bens que detinha in Penafiel de Covas do Rio. Outro topónimo presente em documentos dos séculos XI e XII é Pennafidele, muito possivelmente relacionado à origem do topónimo Pena.” 1

Linha A – Arada | A11 – Portal do Inferno e Garra

Portal do Inferno e Garra

“O Portal do Inferno e Garra é um local de passagem estreita no planalto da Arada e que se ergue entre dois vales escarpados de xisto e que drenam em sentidos opostos. Virados para noroeste, o vale de Covas do Monte fica à direita e o vale de Drave à esquerda, oferecendo vistas vertiginosas de incomparável beleza que alcançam desníveis superiores a 400 metros. 

Este é um geossíto do Arouca Geopark que nos permite descobrir os relevos abruptos causados pela geodinâmica extrema do substrato xistento." 1

Miradouro do Portal do Inferno e Garra

Miradouro do Portal do Inferno e Garra

"Neste local existe um miradouro único, localizado em plena serra da Arada, a cerca de 1.000 metros de altitude, no limite entre os municípios de Arouca e S. Pedro do Sul.

Trata-se de um estreito local de passagem entre duas vertentes íngremes, rodeado por dois ribeiros, de onde se destaca a magnífica Garra, uma encosta montanhosa esculpida por linhas de água, fazendo lembrar a gigantesca garra de uma ave. A garra ressoltou deste fenómeno, e corresponde à erosão de linhas de água a rasgar a escarpa da montanha.

Não longe daqui podemos ainda observar uma imensa dobra, resultante das forças tectónicas que elevaram esta montanha.

A primavera é a estação do ano em que a vista é mais espetacular, pois a Garra parece ficar pintada de amarelo e rosa por causa da floração da carqueja e da urze.
Acesso ao ponto de interesse: de carro; fácil;”
1

Estrada do Inferno - Uma experiência do outro mundo

Estrada do Inferno - São Pedro do Sul - Arouca

A Estrada CM 1123 – Arouca – São Pedro do Sul, leva-nos até ao Portal do Inferno e Garra. O nome desta estrada remete para os martírios dos pecadores que padecem dos seus pecados, assim são os sentimentos de quem por aqui circula, por uns vertiginosos quilómetros, que serpenteiam pela crista da serra, junto de abruptos precipícios. Depois de paráramos para apreciar a Garra, seguimos em direção Arouca e ainda tivemos tempo para parar em Ponte de Telhe.

Biodiversidade: Fauna

  1. Falcão-peregrino
  2. Pólio-das-rochas
  3. Melro-das-rochas

Créditos e Fontes pesquisadas

Texto: Ondas da Serra com exceção do que está em itálico e devidamente referenciado.
Fotos: Ondas da Serra. 

1 - Rota da Água e da Pedra – Montanhas Mágicas - Município de São Pedro do Sul
2 – Milagre de São Macário, por Camilo de Araújo Correia, “O Arrais”, de 25 de março de 1999
3 - ensina.rtp.pt

Galeria de fotos da Serra de São Macário

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Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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