As quatro cidades de Emanuel Bandeira Emanuel Bandeira
quarta, 27 junho 2018 00:01

As quatro cidades de Emanuel Bandeira Destaque

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É em liberdade pela cidade que Emanuel Bandeira se sente feliz. A sua agenda revela um desejo insaciável por contribuir para que “a melhor cidade do mundo” continue a progredir. Mobiliza o seu tempo em prol deste local com vista privilegiada para o mar. Contamos quatro cidades dentro da cidade de Emanuel, em pleno coração vareiro. Hoje, Esmoriz conta mais uma história sobre Emanuel ou será Emanuel a falar sobre Esmoriz?

Se pudesse, amanhã deixaria “de dar tanta importância a determinados problemas”, confessa. “Às vezes perdemo-nos tanto nos problemas em si que nos esquecemos de pensar nas soluções. Pensar menos nos problemas e pensar mais nas soluções.”, continua Emanuel Bandeira. Nasceu e cresceu em Esmoriz. Agora, aos 26 anos, tem o compromisso de propor caminhos, encontrar alternativas e melhorar o dia-a-dia não só dos esmorizenses, mas sobretudo das pessoas que vivem no concelho de Ovar.

 

Esmoriz

 “A ligação a Esmoriz vem do facto de ter nascido aqui, ter crescido aqui, ter estudado aqui. Estou em Esmoriz há 26 anos e a ligação vem daí. Quando estamos tanto tempo num sítio acabamos por conhecer, por gostar e por criar aquele bichinho”.

 

“É impossível morar aqui, ver a praia, a tanoaria, o dinamismo associativo, a comida ótima que temos, e não nos apaixonarmos pela cidade”, explica. No entanto, a ligação com a cidade também o leva a reconhecer as melhorias que ainda é necessário fazer e é também por isso que está na direção da Comissão de Melhoramentos de Esmoriz.

 

“Em Esmoriz tens uma diversidade que faz com que uma pessoa se apaixone. E depois há uma coisa que a cidade tem e que é ótima: existe um associativismo muito forte e isso confere um dinamismo muito próprio a este lugar”, conclui. A relação com Esmoriz é anterior à paixão por fazer política e estar na frente da intervenção cívica.  No entanto, existe um gatilho anterior a estas duas paixões.

 

Nos dias de hoje, o principal problema da cidade é a rede viária e que não reflete o estatuto de cidade de Esmoriz. Emanuel fala ainda da necessidade de se investir em parques infantis e parques de desenvolvimento desportivo ou de manutenção. No entanto, salienta ainda a importância da requalificação da biblioteca de forma a que se imponha como polo cultural: “Certo é que a política é a arte de gerir recursos que são escassos e é preciso fazer opções, não sendo possível fazer tudo ao mesmo tempo”.

 

Inevitavelmente, falamos sobre o EsmorizTur. A obra já foi consignada, mas ainda é cedo para celebrar. “Eu só gosto de dar as conquistas por conquistadas quando a obra está acabada e por isso é uma conquista em progresso. O EsmorizTur é aquele assunto que toda a gente fala em Esmoriz, mas que ia caindo na nostalgia das pessoas até o Salvador Malheiro ter chegado”.

 

A mãe

“Quando era mais novo a minha mãe tomou a melhor decisão de sempre e colocou-me nos escuteiros. Permitiu-me trabalhar a minha vertente cívica, o respeito pelos outros e a vontade de ajudar. A política acaba por ser uma sequência, muito por influência da minha mãe”, numa história que ainda tem muito por revelar.

 

“A minha relação com a política tem dois lados. Primeiro, surge por inspiração da minha mãe. É uma verdadeira política, não partidária. Política vem de polis, polis vem de cidade. O seja, o que se faz pela cidade?

 

A minha mãe tem esta postura de verdadeira política. De Política no sentido puro. Levava as reivindicações das pessoas, ouvia os seus problemas e dava sugestões. E fazia-o não pelos votos, mas por querer ajudar. Ir às compras com a minha mãe quando eu era miúdo era uma tortura. Ela é extremamente conhecida na cidade, em muito devido ao facto de ser professora na Escola Secundária de Esmoriz, e não podíamos andar 10 metros sem parar para falar com alguém.

 

Houve uma altura, devia ter perto de 5 anos, em que eu já estava farto de ouvir problemas e fiz uma birra. E foi este momento que me marcou. A minha mãe sentou-se comigo e explicou-me porque ouvia os problemas das pessoas e tentava acalmar e dar sugestões. Essa conversa marcou-me profundamente. Foi vê-la a fazer política no sentido puro da palavra que foi fazendo crescer em mim o gosto pela política mais do que pelos partidos. Eu faço parte de um partido, mas isso veio mais tarde.

 

Esse exemplo da minha mãe e dos escuteiros deu-me vontade de deixar o mundo melhor do que o encontramos. Mais tarde veio o curso de Direito, na Faculdade de Direito do Porto, e aí começo a perceber melhor o que distingue os partidos e comecei a identificar-me mais com um partido do que com outros. Resolvi entrar para o PSD e para a JSD por várias razões e faço parte com muito orgulho. Embora isso nos cause alguns dissabores, sobretudo pela forma como as juventudes partidárias são vividas.

 

A comunidade

“Sinto a vontade de contribuir com aquilo que sei, devolver um bocadinho à comunidade. Por outro lado, ganho experiência e mundo. Não sei de cor quantos cargos desempenho, mas sei que dou o máximo em cada um deles. O dia tem 24 horas e é um mito dizer que precisamos de dormir oito horas. Está comprovado que podemos perfeitamente dormir 4horas, não pode é ser por muito tempo”, sorri, sabendo que se está a tentar convencer disto mesmo enquanto o diz.

 

“A coisa mais preciosa que temos a seguir à família é o tempo. O que desperdiçares não volta e tem de ser muito bem gerido. Sinto-me bem quando me sinto útil, nomeadamente a trabalhar para estas associações. A melhor forma de gastar o tempo é usá-lo em benefício dos outros.”

 

A política

“Precisamos de mais pessoas que entram para a política para servirem e não para se servirem. Os partidos estão formatados não para as ideias, mas para os lugares. São máquinas de obtenção e conservação de poder quando deveriam trabalhar ideias e soluções de desenvolvimento local, municipal, regional e nacional. Não é o que acontece hoje em dia.

 

O sistema dá os incentivos errados e precisamos de pessoas que estejam desprendidas dos lugares e tenham ideias e ideais. É com esta convicção que estou na política e acredito que se está a formar uma nova vaga a pensar assim. Isto só se muda quando as pessoas de princípios conseguirem dar bons exemplos e erradicarem os maus exemplos. Quem presta um mau serviço à política devia de ser impedido de estar nos partidos.”

 

Juventude

O Conselho Municipal da Juventude é uma das principais conquistas em que participou em matéria de juventude. O órgão consultivo, imposto por lei desde 2009, não existe na maioria dos concelhos do distrito de Aveiro, de acordo com o militante da JSD, e reúne associações de estudantes, juventudes partidárias, escuteiros, representantes da Assembleia Municipal e associações juvenis.

 

O seu objetivo é colocar jovens a falarem entre si, sem a questão partidária, com objetivo de identificar problemas e tentar apresentar soluções que a Câmara pode ou não implementar. Em Ovar, o processo começou em 2016. A missão era criar o Conselho, independentemente das consequências.

 

Na altura Emanuel ainda não era membro da Assembleia Municipal: “Eu e outro representante da JSD dissemos no momento do público na Assembleia Municipal que precisávamos do conselho e, para que o processo não atrasasse, comprometemo-nos a preparar um rascunho e a entregar num mês. As pessoas na sala não deram grande importância. Menos de um mês depois [Novembro de 2016] entregámos ao presidente da câmara, ao vice-presidente e ao vereador da juventude a proposta do regulamento para o conselho municipal da Juventude”. Foi um trabalho da JSD de Ovar e que acabaria aprovado, já este ano, por unanimidade em Assembleia Municipal.

 

Neste momento, o regulamento está publicado em Diário da república e a Câmara começou os procedimentos para eleger os órgãos e começar a trabalhar.

 

Em Ovar, a política de juventude está entrelaçada com as políticas de educação e de desporto. O que estamos a tentar fazer é separar as águas. As áreas relacionam-se, mas não podemos colocar juventude no meio das outras para não se falar de juventude”.

 

O Conselho Municipal da Juventude surge como consequência indireta de um projeto anterior: o Ponto Jovem. Em 2015, um grupo de amigos, em que está incluído Emanuel, aproveitou o orçamento participativo municipal para apresentar uma iniciativa de juventude. Era simultaneamente um projeto de desenvolvimento de competências, desde gestão do tempo à preparação para entrevistas de emprego, e uma causa cívica.

 

O primeiro projeto de juventude em Ovar terminou em 2017 e o seu principal impacto foi começar a consciencializar a comunidade para a importância da política jovem. A Câmara agarrou o mote e está a desenvolver outro parecido, o Ovar Career Camp, no sentido de desenvolver as competências dos jovens.

 

A mascote do projeto era um farol. O seu significado era o desejo de iluminar o concelho para as políticas de juventude e dar pistas para o caminho a seguir. Resultou. 2018 é o primeiro ano em que a Câmara tem no seu orçamento municipal uma rúbrica específica para políticas de juventude. “É uma verba reduzida, mas é a primeira vez e fruto desta pressão. É um trabalho que nos deixa muito orgulhosos”, salienta Emanuel.

 

“Quando temos de ser duros para defender os interesses dos jovens somos. Os princípios têm de estar acima das amizades”, defende o atual diretor do Gabinete de Eventos, Parcerias e Protocolos da União das Mutualidades Portuguesas.

 

Emanuel

“Sou idealista e às vezes desiludo-me. A nível político não me conformo com decisões que beneficiam uns poucos quando deveriam ser tomadas em benefícios de muitos. Todos os anos temos défices, gastamos mais do que aquilo que temos, e as gerações futuras já nascem com um ónus sobre o qual nada decidiram”.

 

Emanuel refere ainda o inconformismo com a transformação dos partidos políticos em estruturas de obtenção do poder, cargos e dinheiro, salientando: “Talvez seja eu quem está errado, mas prefiro estar errado e pensar assim e não sacrificar os meus princípios”.

 

Já no que diz respeito à esfera pessoal, não se conforma com a ausência de tempo: “O dia tem 24horas para todos e quando me dizem que não há tempo, tempo há, e o que muda é a gestão desse tempo. É mais uma desculpa do que uma verdade”.

 

Sobre os desafios, destaca a batalha para “não perder estar vontade de melhorar e de dar o contributo todos os dias”. Tenho imensos defeitos, mas tento ajudar na medida daquilo que sei e o principal desafio é manter este espírito, sair todos os dias cama e dizer que quando sair do trabalho ainda vou ter de fazer isto, isto e isto, e sem perder o sorriso. O maior desafio é encontrar a motivação e a determinação para continuar a contribuir”, suspira.  

 

“A História está cheia de histórias de pessoas que começaram com muitos princípios mas ao longo do tempo foram-nos atirando pela janela e eu costumo dizer: ‘prefiro não chegar a lado nenhum, mas manter o que sou do que chegar muito alto e ter que comprometer os meus princípios.’ É estúpido, eu sei, há muita gente que se ri quando digo isto, mas quando as pessoas se riem lembro-me sempre da minha mãe. Foi assim que ela me educou e vai ser sempre assim”, termina.

Leia também: Ondas da Serra foi ouvida na Rádio Voz de Esmoriz

Lida 1060 vezes Modificado em terça, 02 abril 2019 08:20

Autor

Ricardo Grilo

Histórias capazes de entrar em contacto com as emoções de quem as lê justificam a minha paixão pelo jornalismo. Natural de Santa Maria da Feira, acredito no potencial de um concelho em ensaios para escrever a sua autobiografia. Aos 24 anos, e enquanto colaborar do ‘Ondas da Serra’, procuro a beleza em escrever sobre uma terra tão especial.

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