Onde param os fontanários de Ovar? Fonte da Vila | acessos pela Rua Alexandre Herculano e Parque Urbano
sexta, 25 maio 2018 12:16

Onde param os fontanários de Ovar? Destaque

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Espalhados pela cidade e arredores de Ovar, encontramos fontanários cuja função era dar de beber aos vareiros do concelho. A construção dos parques juntos às frentes ribeirinhas, têm melhorado a recuperação de alguns, mas ainda não é suficiente para evitar que parte do património desapareça. Medimos a saúde destas fontes durante um passeio de bicicleta ao longo de oito quilómetros com muitas derivações. Deixamos uma sugestão para planear uma visita a este património indelével da população de Ovar.

A sua requalificação sustentada na criação de uma rota cultural poderia provocar o regresso estes ecos do passado para um presente dinâmico e criativo. Sabemos que o vandalismo espreita sempre a sua oportunidade, mas essa é uma questão para outras entidades.  

Fontes de Ovar

Fonte da Ponte Nova: Esta fonte fica situada na EN 109, junto aos semáforos com a EN 223. Este monumento está bem conservado, apesar de estar empalado na parede.  Voltamos para a cidade pela Rua 12 de Fevereiro e entramos a norte do Parque Urbano, que dá acesso a três fontes.

No interior do parque visitamos as fontes da Mota, de Pelames e da Vila. A Fonte da Mota e da Vila têm ainda acesso pela Rua Alexandre Herculano.

Fonte da Mota: Fica localizada a norte do Parque Urbano e está razoavelmente bem conservada. A água ainda corre, mas as paredes estão grafitadas e há lixo espalhado.

Fonte dos Pelames: É uma das mais bonitas e com a melhor localização no centro do Parque Urbano, junto à Rua Dr. António José de Almeia. Em tempos idos pode ter servido para lavar a roupa. Seria interessante se voltasse a ter um espelho de água. 

Fonte da Vila: Fica situada perto do topo sul do Parque. Esta fonte está bem preservada, mas a água está coberta de algas verdes.

Fonte das Luzes: Fica situada na Rua Nova da Madria e quase passa despercebida porque está quase totalmente coberta de heras, que nem deixam ver o azulejo com a quadra ali colocado. Aqui a água ainda corre e por cima da bica foram colocados duas bases para antigamente serem pousadas as cântaras cheias e ser mais fácil o seu levantamento para a cabeça de quem as transportava.

Fonte da Madria: Fica situada um pouco longe do centro de Ovar. Quando sair da Fonte das Luzes, segue a estrada para nascente e vira na primeira rua à esquerda. Esta fonte está muito degradada. O espaço não é muito, mas poderia ter outro tipo de enquadramento. Outrora as suas águas espelhavam o corrupio de gente do local. Atualmente ostenta um aviso a informar que a água já não é controlada.     

Fonte da Arruela: Depois de visitar a Fonte da Madria regressa pelo mesmo caminho, para a Fonte das Luzes. Depois de passar por baixo do viaduto da CP, volta à esquerda para a Rua Dr. João Semana, que passa por cima do Rio Lages. Logo a seguir à ponte volta sempre esquerda até chegar a uma pequena rua virada para norte. Esta fonte está maltratada, com grafites e muros partidos. A água não corre e as ervas reclamam cada vez mais espaço.  

Fonte dos Combatentes: Depois de sair da Fonte da Arruela pelo mesmo caminho, ao chegar novamente à Rua Dr. João Semana, volta à esquerda. Vai dar à rua Coronel Galhardo, situada perto do Largo dos Combatentes. O acesso à fonte é efetuado por uma monumental escadaria em granito, ladeada por bancos que convidam à contemplação. Esta fonte está bem enquadrada e razoavelmente preservada. A água corre abundantemente. 

Fonte Júlio Diniz: Depois de visitar esta fonte, desce a rua em direção ao mercado municipal e vira à esquerda para o Parque Srª da Graça. Aqui pode encontrar a Biblioteca Municipal, o Centro Artes e o Espaço Empreendedor. Junto deste último edifício começa um pequeno percurso junto ao Rio Cáster. No final do mesmo, e em frente da parte lateral da Escola de Artes e Ofícios, fica situada a última fonte que visitamos. Esta também beneficiou das obras de remodelação desta frente ribeirinha.

Antiga Fonte da RibeiraO escritor que lhe deu o nome, e escreveu “As pupilas do Sr. Reitor”, confere um ar sério a esta fonte e não se compadece com o lixo que foi encontrado nas suas águas.

Depois de terminar a visita às fontes atravesse o "Casal" por um acesso lateral paralelo à estrada, chegando rapidamente ao centro da cidade. Não se esqueça de provar o pão-de-ló de Ovar.

Fizemos este trabalho para registar intemporalmente o património da cidade de Ovar e não aconteça como à antiga fonte da Ribeira que foi desmontada, restando atualmente apenas o nome da rua, (Fonte: LOPES, Pinho. Ovar e as suas fontes. Revista Reis, Ovar, n. 25, p. 32-35, jan. 1991.)

Estamos convictos que faz falta uma rota turístico/cultural semelhante à que fizemos e que as fontes sejam pontualmente alvo de conservação, vigilância e segurança.

 

 

  
 

Fonte da Ponte Nova

A Fonte da Ponte Nova foi construída em 1876, está situada precisamente na estrada nacional 109, perto do cruzamento com a estrada nacional 223.

Este marco fontanário tem uma história dramática: foi desmantelado, retirado do local original e por fim depositado, não se sabe onde, juntamente com entulho de demolição do prédio antigo no qual se integrava. Com a confusão e falta de civismo dos responsáveis da obra e das autoridades, procedeu-se ao “despacho” das peças que constituíam o fontanário, para não atrapalhar a nova obra. Porém, depois do alerta dado pelo “Notícias de Ovar” no artigo “Onde para o fontanário da Ponte Nova?” conseguiu-se elucidar os responsáveis do provável destino das peças embora se tenham dado várias versões do sucedido.

Por fim, graças ao bom senso do proprietário do novo prédio, que se preocupou com a preservação do património de Ovar, foram então reencontradas e restauradas algumas das peças e por fim o fontanário da Ponte Nova foi reconstruído num outro local (cerca de 15 metros a norte do local primitivo), incrustado na parede do novo prédio.

Este marco fontanário de forma cilíndrica, tem inscrita a data de 1876 e é encimado por um motivo escultórico em forma de pinha. Atualmente, com uma nova taça na base, apresenta-se com um aspeto mais jovem apesar de centenário, mas quem o vê ali solitário, dia e noite, atormentado com o barulho da circulação automóvel, parece afirmar que se sente triste e quereria chorar continuamente e só não chora porque puseram uma torneira que impede de jorrar continuamente as suas lagrimas de solidão… E apenas tem como companhia os sacos e latões do lixo, o barulho dos veículos automóveis e o pó da estrada….

 

 

Fonte da Mota

A Fonte da Mota situa-se na Rua Alexandre Herculano, (a típica Rua da Fonte, por nela existiram muitas fontes), a norte da Fonte da Vila.

A sua água foi muito procurada pelo seu poder terapêutico e medicinal, muitas vezes recomendada pelos médicos e da qual os vizinhos se lembram com saudade. No entanto, “nenhum esclarecimento podemos obter que nos elucidassem a respeito da sua história”, como afirma João Frederico Teixeira de Pinho.

De aparência pálida, devido às cores amarelas da frontaria, e de aspeto “bolorento” graças ao envelhecimento das paredes, a sua beleza ainda continua patente nas pitoresca volutas que a encimam a no painel de azulejos com a quadra:

“Pobre ou rico, isso que importa
Dá-lhe a todos de beber.
Canta, canta eternamente
Não te canses de correr.”

 

 

Fonte dos Pelames

A Fonte dos Pelames situa-se na travessa do mesmo nome. Foi construída em 1871 e completamente remodelada em 1960. É abastecida por uma água ferruginosa, considerada “milagrosa” e procurada por todos, nos tempos de outrora…

No frontispício em granito, notam-se vestígios da restauração (argamassa nova e um pilar restaurado). A frontaria do fontanário descreve um arco de ogiva no qual está esculpido um ornamento bastante interessante em granito no qual está inscrita a data de 1871 e as letras sobrepostas CM (Câmara Municipal de Ovar). Corre bica apenas um fio de água bastante enferrujada (ou não se chama-se a fonte das águas férreas) que mancha a parede de cor ocre.

É uma das poucas fontes de Ovar que não tem o típico painel de azulejos com a correspondente quadra.

 

 

Fonte da Vila

A Fonte da Vila encontra-se situada na Rua Alexandre Herculano, a sul, e por isso também se chama Fonte de Baixo, em relação à da Mota que se situa na mesma rua mais acima desta, a norte. Tem também a denominação de Fonte da Olaria uma vez que o local onde se encontra era o antigo Bairro da Olarias. Pode ainda ser designada por Fonte das Figueiras devido à sua construção na antiga rua das Figueiras, agora Rua Alexandre Herculano.

Não se sabe ao certo a sua data de construção, mas segundo afirma João Frederico Teixeira de Pinho, na sua obra ‘Memórias e Datas para a história da Vila de Ovar’: “…a sua denominação, arquitetura e assento, no Bairro das Olarias, nos leva a acreditar que fosse a primeira que os habitantes da Vila, propriamente dita, construíram.”.

A Fonte encontra-se desviada da rua principal (Rua Alexandre Herculano) por um caminho… …é o grandioso pináculo e o singelo painel de azulejos, típicos de Ovar, em azul e branco, na qual se encontra inscrita a seguinte quadra:

“Água pura e cristalina
Fresquinha de consolar,
Vem de ti p’ros nossos lábios
Mata a sede a quem passar”

 

 

Fonte das Luzes

Esta pequena fonte, situada na Rua Dr. João Semana, é de frontispício simples e da qual não se sabe ao certo a data de construção. Sabe-se, no entanto, que foi reformada no ano de 1844.

O frontispício é de pedra xistosa coberta com argamassa e apresenta uma forma semicircular, onde está adjacente uma escadaria lateral, de cada lado e depois outra em direção à fonte. Perto de cada escada existem dois suportes de granito inseridos na parede. Esta parede encontra-se em estado lastimoso, com parte da argamassa a cair aos pedaços, nas fendas da qual as plantas aproveitam para rebentar. As plantas das traseiras da fonte tentam a todo o custo avançar a parede, que pode mais tarde tapar a visibilidade do painel de azulejos (Nota Ondas da Serra: Isto foi escrito em 1996, estamos em 2018 e efetivamente aconteceu isto que o autor temia) ao qual faltam alguns bocados que contem a característica quadra:

“Fonte que choras de mágoa
Como tu é a dor do mundo
Começa num fio de água
E acaba num mar profundo”

 

 

Fonte da Madria

Situa-se junto à ponte sobre a Ribeira da Senhora da Graça, no lugar de Assões. Dá-se acesso a ela por umas escadinhas tipo espiral quadrada e ali está, a mais preciosa fonte pelas suas águas límpidas, mas como uma aparência pobrezinha. Tem um frontispício singelo, mas sem um simples painel de azulejos, que bem merecia. Só uma bica jorra para cima do tijolo, rodeada por muros branco e altos da escada em redor. Tão humilde que é a Fonte da Madria para não exigir grande prestigio… Limita-se somente a saciar aqueles que ali passam e abastecer as garrafas e garrafões dos que já vêm prevenidos.

 

 

Fonte da Arruela

A Fonte da Arruela é considerada a mais antiga de Ovar. Não se sabe ao certo a data da sua construção, mas sabe-se que for reformada em 1835, reparada em 1926, ano em que ficou com 3 bicas. Esta fonte está situada na Rua com mesmo nome, Rua Fonte da Arruela ou do Seixal, da mesma forma também é conhecida por Fonte do Seixal. É a fonte mais escondia, por entre a mata, perto da Ribeira das Luzes.

Esta fonte é de composição simples: desce-se por uma escada lateral do lado direito até perto da bica e o recinto de forma estranha é rodeado por um muro. No recinto e junto ao frontispício existe um muro baixo, que serve e assento, junto à bica. Na fachada do fontanário encontra-se o típico painel de azulejos, com a sua própria quadra:

“Dizem que as fontes choram?
Cantando espalha seu bem!
Só chora a fonte que nunca
Matou a sede a ninguém.”

 

 

Fonte dos Combatentes

A Fonte dos Combatentes fica localizada no topo sul do Largo dos Combatentes, junto ao edifício que inicialmente foi hospital (atualmente escola primária), já se chamou Fonte do Hospital. Apesar de datada do século XIX, é considerada o ponto de encontro mais “in” da juventude das escolas e arredores.

O frontispício é de granito e considerado o de maior envergadura entre as fontes de Ovar, precisamente pela sua composição e decoração, da qual fazem parte arcos, colutas, molduras, cornijas, pináculos, rosetas e laços, assim como um escudo de arma português. Ao centro encontra-se uma lápide que, segundo consta de documentos antigos, teria a seguinte inscrição: “Ut aqua ista belle fluat, Joannes Maria d’Abreu Castello-Branco, hujus oppidi Pretor una cum Senatu curabit” (Nota Ondas da Serra: A tradução literal que obtivemos desta frase em Latim foi “A fim de que o fluxo de água através destas coisas agradáveis, ó Joannes Maria d'Abreu Castello-Branco, o Senado deve curá-lo deste, juntamente com o Pretor da cidade,” )

 

 

Fonte Júlio Diniz

A Fonte Júlio Diniz, antigamente denominada Fonte do Casal, devido ao sítio onde se encontra, foi reformada em 1835, sem se saber ao certo a data da sua construção. Mais tarde, em 1940 foi reconstruída pela Câmara Municipal de Ovar, em homenagem a Júlio Diniz, passando então a ser denomina pelo nome que é atualmente conhecida.

Apresenta uma escadaria de entrada, junto à ponte do Casal sobre o rio Cáster, que dá acesso a um recinto de acolhimento com lugares para sentar. Dai prossegue uma escadaria para o lado esquerdo, que vai dar ao leito do rio por debaixo da ponte, e para o lado direito onde está a fonte propriamente dita.

Quanto à frontaria do fontanário, está dividida em três partes: a parte central, pintada a ocre e uma de cada lado, pintadas a branco.

Destacada, no centro, encontra-se um painel de azulejos com a esfinge do romancista, com a seguinte legenda: “FONTE JÚLIO DINIZ. RECONTRUÍDA PELA C.M.O NO ANO DE 1940. ”

Mais acima deste, sob o arco do frontispício, encontra-se um brasão esculpido com as armas (escudo) portuguesas. Na parte inferior, corre a água por um cano e acima deste está inscrita a data de 1884 ou 1984, com alguma dificuldade de interpretação. Do lado esquerdo encontra-se um painel de azulejos, representando as lavadeiras do Casal, co uma quadra alusiva ao rio, escrita pelo romancista e poeta, Júlio Diniz:

“Ó rio das água claras
Que vais correndo p’ró mar
Os tormentos que eu padeço
Ai não os vás declarar.”

Ao lado direito da cabreira da qual fala a quadra do seu painel, dando uma lição a um menino, rodeado pelo seu rebanho:

“Andava a pobre cabreira
O seu rebanho a guardar
Desde que rompia o dia
Até a noite fechar.”

 

Bibliografia

Esta pesquisa foi efetuada com base num documento obtido nos arquivos da Biblioteca Municipal de Ovar, intitulado, Fontes de Ovar – 1996. Algumas partes tiveram que ser omitidas porque naquela altura, de uma forma geral, o estado das fontes era substancialmente pior. Todavia, pensamos que está na altura de um novo olhar sobre as mesmas e a requalificação urgente de algumas.

  • Lamy, Alberto Sousa
    • “Monografia de Ovar” – 1977
  • Pinho, João Frederico Teixeira de
    • “Memórias e datas para a história da vila de Ovar” – 1959
  • Notícias de Ovar
    • 7 de novembro de 1991 “Onde pára o fontanário da Ponte Nova”
    • 28 de novembro de 1991 “Ainda o caso do fontanário da Ponte Nova”
    • 6 de fevereiro de 1992 “Pobre e infelizes, as nossas fontes de hoje”
    • 20 de fevereiro de 1992 “As nossas pobre e infelizes fontes como lhe chamamos há dias finalmente já começara a ‘sorrir-se’ ”
    • 22 de outubro de 1992 “Fontanário da Ponte Nova”
    • 11 de fevereiro de 1993 “Recolocando o fontanário da Ponte Nova”
    • 30 de setembro de 1993 “O novo ‘Gheto’ junto à fonte dos Pelames”
    • 21 de outubro de 1993 “O novo ‘Gheto’ junto à fonte dos Pelames 2”
    • 28 de outubro de 1993 “O novo ‘Gheto’ junto à fonte dos Pelames 3”
  • Jorna de Ovar
    • 23 de março de 1994 “Câmara limpa pó da gaveta”
  • Revista Reis/Troupe joc-Loc
    • “Ovar e as suas fontes”

 

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Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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