ADUM - Associação Dona Urraca Moreira | Defesa e valorização do património Oliveirense André Santos - Presidente da ADUM - Associação Dona Urraca Moreira - Madail - Oliveira de Azeméis Ondas da Serra
terça, 20 outubro 2020 14:00

ADUM - Associação Dona Urraca Moreira | Defesa e valorização do património Oliveirense Destaque

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O Ondas da Serra foi conhecer a ADUM - Associação Dona Urraca Moreira, localizada em Madail – Oliveira de Azeméis, que se dedica à defesa e conservação da natureza e património histórico do concelho. Neste artigo vamos conhecer o seu presidente, a sede da associação e sua história, que atividades têm desenvolvido e quais são os maiores problemas que têm enfrentado nestas áreas.  

O vale paradisíaco que a ADUM está a moldar

A ADUM fica localizada perto da ponte do Manica, num fundo de um vale coberto por vegetação autóctone, composta por carvalhos, azevinhos, sobreiros, loureiros e castanheiros. Os caminhos ondulantes são temperados por rosmaninho, hortelã, alecrim, tomilho, manjericão, lúcia-lima, cebolinho, poejo, lavanda ou alfazema. A cada esquina irrompe dum vazo as mais floridas plantas, para semear o que maus ventos e empresa humana levaram.

Nós não estranharíamos ver surgir fugazmente entre a densa vegetação, uma figura na penumbra da sombra, de pena na mão, a realizar a sua vocação, “Gosto de trabalhar num ambiente de pura tranquilidade… à sombra duma frondosa árvore amiga, num sítio solitário, longe dos bulícios.” Entrevista de Ferreira de Castro, na «Pastelaria Veneza», à Avenida da Liberdade – Centros de Estudos dedicado a este escritor em Ossela.  

Quando chegamos a Madail, procuramos a Rua do Manica e avisados de antemão deixamos o carro na rua que dá acesso à associação. Há nossa espera já se encontrava o André Santos, que nos acompanhou até à sede da associação, descendo a encosta em direção ao Rio Ul.

André Santos – O presidente da associação preocupado com o futuro

Ali em baixo, junto aos moinhos do Ginete, onde outrora existiu uma casa de moleiros, que está a ser requalificada pela ADUM, ao som do sussurrante açude e sibilantes pássaros, estivemos à conversa com este homem de 39 anos, metalúrgico e residente em Madail, que depressa nos convenceu da grande sabedoria e paixão pela história da sua terra e necessidade da sua defesa e conservação.   

Quais são os valores que o André defende e o que o motivou a encabeçar este projeto?

Em primeiro lugar por pensar um bocado no futuro das crianças e jovens. Nós temos a responsabilidade de fazer algo que possa melhorar o ambiente, o património cultural, histórico e arqueológico, por isso faz todo o sentido fazermos algo para o defender, para que no futuro os nossos filhos e netos possam usufruir também disso. Se continuarmos a destruir, pouca coisa vai sobrar para eles.

A inspiração da benemérita Dona Urraca Moreira para o nome da associação

Pode explicar-nos como surgiu a inspiração para o nome da associação?

Escolhemos este nome Dona Urraca Moreira, porque foi uma senhora que no princípio do século XX, em 1905, aqui em Madail, cumprindo também um desejo do marido, Joaquim Moreira, ofereceu a primeira escola primária à freguesia. Por ter sido uma benemérita que impulsionou os estudos no nosso concelho, escolhemos o seu nome para a associação.

A recuperação da ponte medieval do Manica

Pode contar-nos um pouco da história desta associação, que sabemos estar ligada à recuperação da ponte do Manica?

Antes da associação existir, já existia um grupo de amigos, que andava a fazer uma investigação sobre o passado de Madail. A ponte do Manica estava quase em ruínas, nós fizemos a sua limpeza, tirámos fotografias e lutámos pela sua preservação. Foi através deste trabalho, que reparamos que não era só esta ponte que estava em ruínas, mas que existia mais património histórico no concelho a necessitar de alertas e preservação. Foi desta forma que decidimos criar a associação para lutarmos e unirmos as pessoas por estas causas.

Os moinhos do Ginete e os projetos da ADUM para o local

Qual é a história dos moinhos do Ginete e que planos têm para o local?

Há uns registos de 1778, que dizem que aqui existiram dois moinhos, um para fazer a descasca de arroz e outro para os curtimentos do couro. Curioso é o facto que poderá estar ligado também aos mouros ou moçárabes, havendo referências no concelho da sua existência. Foram encontradas duas voltas para colocar ao peito das mulas, cujo símbolo é uma lua e uma estrela.

Este local chama-se moinhos do Ginete, porque está associado a cavaleiros de fronteira na Idade Média, muitas vezes até do lado muçulmano. Há documentos medievais que dizem que eles usavam as selas para os cavalos feitas de peles de ginete.

A preservação do património histórico

Nós como somos uma associação para a preservação do património histórico, não fazia sentido nenhum, não preservarmos estes moinhos. Por isso o nosso objetivo é preservar num pequeno museu todo o espólio que temos da família dos moleiros que aqui viveram, como também um dia restaurar o moinho, para mostrar às pessoas como era feita a moagem tradicional. 

Termos uma horta, para um dia se poderem fazer experiências e investigação. Também gostaríamos da participação de pessoas que não tenham essa possibilidade nos locais onde moram.

Esperámos ter uma biblioteca, para colocar os setecentos livros que já temos e uma cozinha tradicional, para atividades da associação.

Queremos que as atividades nas áreas de lazer, sejam enquadradas para respeitar a biodiversidade que aqui existe, onde ainda há muitas espécies de animais.

Quais são os maiores problemas ambientais que o concelho enfrenta?

Temos a poluição dos rios e desorganização da floresta, depois temos outros indiretos causados por eles.

O viveiro florestal para a dinamização do património natural

Pode explicarmos qual a função do vosso viveiro?

O viveiro florestal é outro projeto para nós importantíssimo, para criar património ecológico e paisagístico, porque em Portugal existe uma grande desorganização florestal. Nós decidimos que era importante sensibilizar para a importância das nossas espécies, não só das pessoas do concelho, mas quem nos procurar.

Neste momento temos cerca de setecentas árvores no nosso viveiro, de vinte e seis espécies diferentes, carvalhos, faias, bétulas, sobreiros, sendo dezoito autóctones. O nosso objetivo é sensibilizar e oferecer algumas árvores, para pessoas de dentro e fora do concelho, poderem reflorestar orlas dos bosques ou margens dos rios.

A plantação exagerada da monocultura do eucalipto

Nós não somos contra o eucalipto, simplesmente achamos que está a ser plantado exageradamente. Não faz sentido erradicar esta cultura duma zona de produção, o que defendemos é existirem outras espécies separadas. Deveríamos preservar zonas ribeirinhas, como campos agrícolas, para outro tipo de atividades económicas, como a produção de castanhas, trazendo mais turismo e qualidade de vida aos oliveirenses e futuras gerações.

Todas as pessoas com quem falamos até ao momento que tinham eucaliptais, aderiram de certa maneira aos nossos projetos, convertendo algumas das margens junto aos rios ou caminhos. 

Portanto os objetivos do viveiro foram alcançados, sensibilizar, aconselhar e partilhar ideias com outras pessoas que tenham esses interesses.

A paisagem protegida do rio UL e as margens do Pindelo

Quais são as áreas naturais do concelho que já recuperaram ou gostariam de ver recuperadas?

Nós estamos centrados aqui no espaço de Manica, porque é aqui a nossa sede e por isso temos recuperado com acordo dos proprietários, muitas áreas envolventes. Aqui temos um património importante, que vai até perto das escolas e do centro de Oliveira de Azeméis.

Temos também a paisagem protegida de Ul, outra zona importante são as margens do Pindelo, Rio Antuã, e Pinhão, que é um tesouro que se tem lá e temos de ter cuidado com o que se vai fazer, devido à riqueza da sua natureza e existência de muitos moinhos.

Duma forma geral todas as freguesias têm locais para preservar, principalmente junto dos rios, porque este concelho é muito rico neste aspeto, por isso estas margens deviam ser todas protegidas.

Obviamente que em zonas de produção o concelho de Oliveira está a ficar repleto de eucaliptos e austrálias, sem qualquer tipo de organização.

A preservação do património histórico e achados arqueológicos

Pode explicar-nos de que forma estão a dinamizar e proteger o património histórico e arqueológico do concelho?

Muitas vezes surgem achados quando são feitas remoções de terras para plantações florestais. Nós fazemos a recolha desse material arqueológico importante para o concelho e procedemos à sua entrega e sinalização no gabinete municipal de arqueologia.

Temos algumas pessoas na associação que estão incumbidas de fazer a catalogação das calçadas antigas do concelho, que eu acredito que algumas são romanas e medievais. Era importante que algumas partes delas fossem preservadas, para garantirmos às futuras gerações, que conhecessem quais foram esses traçados, porque muitos dos locais descobertos só foram encontrados devido as indicações destas vias.

Com a nossa ajuda muitos destes locais que não estavam catalogados são agora conhecidos, como por exemplo os sítios romanos de São Roque, Travanca, São Tiago de Riba Ul e Madail.

A conciliação da missão da ADUM com outros interesses divergentes

De que forma têm conseguido conciliar a vossa missão com outros interesses antagónicos, por exemplo, madeireiros, caçadores ou agricultores?

A associação desde o princípio teve o interesse de falar com estas pessoas, porque quando nós falamos da sustentabilidade da floresta em Portugal ou outro sítio, não nos podemos esquecer do sector económico, ambiental, conservação da natureza, ou atividades lúdicas, quando se fala em sustentabilidade temos que ter em conta todos estes fatores. Acho que se dissermos que vamos retirar todo o eucalipto de Portugal, as pessoas desistem.

O eucalipto e um setor da celulose, que oferece uma fonte de rendimentos aos proprietários.  O que nós queremos é que seja plantado de forma organizada, deixando espaço para outras culturas, para não destruir outras economias ligadas à floresta, como a produção de castanha, que era viável no concelho.

A poluição do rio UL provocada pela ETAR de Santiago

O Rio Ul que passa pelo Parque Temático Molinológico é muitas vezes notícia pela sua poluição, qual é o seu estado atual e se sabe qual a fonte dos seus problemas?

O maior problema do Rio Ul, apesar doutras descargas mais pequenas é a ETAR de Santiago em Salgueiro, porque se formos visitar o rio para cima da ponte do Salgueiro, olha-se para a água e depois olha-se para baixo e vê-se a diferença. Ela não cumpre, nem tem cumprido os requisitos duma ETAR. Isto tem poluído o rio e obviamente que a qualidade de peixe que existe é prejudicada pela qualidade da água, que podemos ver é péssima.

No caso do CAIMA, temos o mesmo problema com a ETAR de Ossela.

Ajude a ADUM tornando-se um dos voluntários

Que são os projetos que gostariam de ver mais desenvolvidos?

Temos também outros projetos parados por falta de voluntários como o registo das histórias orais dos nossos avós e bisavós. Ainda há muito património oral, que não sendo gravado nem registado vai desaparecer.

Como é que as pessoas podem ajudar a vossa associação?

Nós gostaríamos que a associação tivesse mais voluntários, mas se as pessoas partilharem os nossos valores e preservarem o nosso património já nos estão a ajudar.  Nós infelizmente ainda não estamos organizados para receber muitos voluntários, ainda mais com este problema do Covid.  Quem nos quiser ajudar, que entre em contacto para podermos receber essas pessoas.

O final da entrevista com a visita à ponte do Manica

Antes da nossa equipa ir embora, fomos conhecer a recuperada ponte do Manica e pelo caminho ouvir outras histórias do André sobre as raízes do concelho, que remontam à pré-história, passando pela idade média, até aos nossos dias. Se estivermos atentos aos ecos do passado, presentes em cada pedra, símbolo ou ruína, sem antes as destruirmos, encontramos os valorosos lusitanos a clamar por contar quem foram e que contributo deram para a nossa existência. É esta a paixão do André e pensamos que dos outros membros da ADUM, por isso convidámos os Oliveirense a ouvi-los e ajudá-los.

Localização e contactos

Sede: ADUM - Rua do Manica, 120 - Moinhos do Ginete – Madail – 3720 120 Oliveira de Azeméis.
Telefone: 916 991 381
Facebook: ADUM

 

 

Ponte Manica*: Ponte medieval, provavelmente construída no século XIII ou XIV, como apontam a sua arquitetura românica e outros achados. Não servia só como uma passagem do quotidiano das populações, mas também, como uma passagem importante nas peregrinações, da idade média para Santiago de Compostela. Apesar da sua história, devido ao encerramento de um Hospital medieval, dos Cavaleiros Hospitalários que existiu em Madaíl, esta via (incluindo a ponte,) perdeu a importância que tinha tido nos primeiros tempos da sua existencial. Depois do encerramento do Hospital os peregrinos, deixaram de passar por esta estrada. Fonte: CM Oliveira de Azeméis.

Trabalho desenvolvido pela Associação - Fotos ADUM

 

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Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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