Museu da Chapelaria Joana Galhano (esq), Deolinda Silva (dt). Imagem fundo: Méssio Trindade, antigo funcionário da "Empresa Industrial de Chapelaria", que veio trabalhar para esta empresa com 10 anos de idade. Este ex-operário faleceu em 2016 com 89 anos e foi colega da Deolinda Silva. A sua função era prepar o feltro e fazer o chapéu de forma manual.
quinta, 12 outubro 2017 02:13

Museu da Chapelaria Destaque

Classifique este item
(2 votos)

O "Ondas da Serra" deslocou-se ao Museu da Chapelaria, situado em São João da Madeira, e falou com Joana Galhano, que trabalha neste espaço municipal desde 2005, "quando começou a ser desenvolvido o projeto de investigação que durou 10 anos, aos quais se podem acrescentar os 12 anos que passaram desde a sua abertura." O Museu da Chapelaria é um dos quatro que existe na União Europeia, sendo uma "instituição de natureza permanente, criada para o interesse coletivo."

O projeto de investigação e a abertura do Museu da Chapelaria

Este projeto começou a ganhar asas ainda a Fábrica Industrial de Chapelaria estava a laborar. Com o seu encerramento, em 1995, arrancou o projeto de investigação, bem como o de recolha de peças, não só desta empresa mas também de outras indústrias do concelho. Foram efetuados contactos com antigos operários chapeleiros das empresas que fecharam as suas portas, mas que na época ainda estavam em funcionamento, com o objetivo de ser criado um museu relacionado com esta atividade, porque este tipo de indústria faz parte da identidade dos sanjoanenses. "É costume dizer-se nesta terra que o difícil é não encontrarmos, nas famílias, alguém que não tenha trabalhado no ramo da chapelaria ou do calçado", referiu Joana Galhano.

A indústria chapeleira Passado e presente

O município tem registos que esta indústria remonta ao início do século XIX – já que a primeira fábrica artesanal surge em 1802 –, mas terá sido a partir de meados do século XIX que se dá a sua forte expansão, com métodos ainda tradicionais e artesanais, sendo a produção efetuada em pequenas fábricas e oficinas.

António José de Oliveira Júnior, fundador da Empresa Industrial de Chapelaria (1914), criou, em 1891, a primeira fábrica sanjoanense com processos mecanizados, vindo a dar um novo alento a este ramo industrial. Com a evolução do negócio e a necessidade de expansão para um edifício maior, o empresário adquiriu o terreno onde construiu a Fábrica Nova, a Empresa Industrial de Chapelaria. Refira-se que esta foi uma das primeiras empresas do concelho a ter eletricidade privativa, sendo a maior e a mais importante fábrica de chapéus da Península Ibérica.

Com a criação desta fábrica surgem muitas outras que também se desenvolveram nos primeiros 20 e 30 anos do século XX. Este desenvolvimento fez com que São João da Madeira passasse a ser um grande centro produtor chapeleiro, sendo o único concelho onde ainda se produzem chapéus de feltro. "Somos considerados uns dos melhores produtores a nível mundial nesta área. Com a evolução histórica, os fabricantes especializaram-se num nicho de mercado de qualidade e não de produção em massa", adiantou Joana Galhano.

A produção do feltro

O feltro é um tecido fantástico, produzido a partir de fibras naturais (pelos de animais). Normalmente, é utilizada lã, pelo de coelho, de lebre e de castor. A lã é utilizada no fabrico do feltro mais económico e o pelo de castor é o que tem melhor qualidade.

Na sua formação, que dispensa os teares, são utilizadas as seguintes três técnicas: pressão, fricção e água quente. Este processo combinado permite que as fibras se juntem e cruzem de forma a criar uma massa compacta, dando origem ao tecido conhecido por feltro. "Este tem como características principais o facto de ser extremamente maleável, sendo resistente à água. É por todas estes motivos que estes chapéus podem ser usados no verão e no inverno, principalmente por aquelas pessoas que não gostam de guarda-chuvas", referiu Joana Galhano.

Empresa Industrial de Chapelaria

Relatos de antigos operários referem que nesta empresa chegaram a trabalhar cerca de duas mil pessoas, e que esta produzia chapéus de feltro, palha e pano. A mesma fabricava também calçado, as famosas sapatilhas Sanjo, cuja produção não conseguia, por vezes, satisfazer as encomendas dos clientes.

Antigamente, nestas grandes empresas, fazia-se a produção completa do chapéu, desde o tratamento da matéria-prima, produção de feltro, acabamento e comercialização. Hoje, o processo é o mesmo, mas está repartido em três grandes indústrias, existindo uma única empresa habilitada a trabalhar os pelos, a “Cortadoria Nacional do Pelo”, localizada nesta cidade, e que foi criada por decreto do governo, após ter sido realizado um estudo para reorganizar esta indústria.

A empresa FEPSA é a única produtora de feltros a nível nacional. Muitos dos chapeleiros, saídos das empresas que fecharam as suas portas, fundaram as suas micro ou médias empresas, continuando a trabalhar de forma muito artesanal, modelando o chapéu à mão, tornando, por esse motivo, o chapéu num produto único.

O chapéu está na moda

Antigamente, o chapéu tinha um papel identificador de classes e profissões. No passado recente, toda a gente usava chapéu. No túnel, junto à entrada do museu, existe uma fotografia que mostra um grupo de homens do início do século XX, num comício republicano, desconhecendo-se a sua localização exata. Naquela época, ninguém saía à rua sem chapéu, porque era uma peça obrigatória do traje, fosse de homem, mulher ou criança. Segundo Joana Galhano, hoje "o chapéu não está em desuso, até pelo contrário. Prova disso é o facto de o museu ter um posto de venda e de se verificar o aumento das vendas, principalmente nos chapéus de senhora. Por outro lado, o chapéu começa também a ser usado por questões de saúde, para prevenção dos raios UV, na altura do Verão, devido aos cancros e melanomas associados."

Espólio do Museu

O processo de recolha do espólio foi efetuado de várias formas: alguma da maquinaria, ferramenta, produtos e chapéus vieram da antiga Empresa Nacional de Chapelaria, que se conseguiram salvaguardar. Também foram doadas algumas máquinas por outras empresas do ramo e por particulares, porque todos querem ver as suas memórias preservadas.

Pessoas ilustres no Museu

O museu foi inaugurado em 22 de junho 2005, pelo Presidente da República da altura, Jorge Sampaio, e esposa, que doou um chapéu ao museu, e desde essa data tem sido visitado por alguns ilustres, como é o caso de Lídia Franco, atriz apaixonada por chapéus.  

Visitas guiadas

Dependendo dos períodos, existem sempre bastantes ofertas, como é o caso das visitas guiadas (que podem ser temáticas e exposições multitemáticas). A exposição de longa duração do museu retrata o processo industrial da manufatura do chapéu, devido à característica marcadamente industrial do espaço, podendo ser acompanhada por antigos operários, que vão contando histórias do tempo em que laboravam.

Em 2016, o Museu da Chapelaria foi visitado por cerca de 25 mil pessoas, sendo um dos quatro que existe na União Europeia, para além do Musée du Chapeau, em Chazelles-sur-Lyon (França), da Fábrica do Borsalino, Alessandria (Itália), e do Hat Works Museum, em Stockport – Manchester (Inglaterra).

Pode consultar os programas oferecidos, em http://www.museudachapelaria.pt/pt/visitar-o-museu

Leiam também os nossos artigos sobre uma antiga funcionária desta industria, "Deolinda Silva | A pequena dos chapéus" e "O calçado português em São João da Madeira".

 

 

 

Lida 654 vezes

Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

Itens relacionados

Os Amigos da Tasca Centenária e da música popular Portuguesa

Em Cabomonte – São Miguel de Souto, na Tasca Centenária da Marçalina, um grupo de amigos reuniam-se em convívio à volta das cartas, dos petiscos e das brincadeiras. Com o tempo trouxeram instrumentos, os cantares ao desafio e a vontade de formarem um grupo musical. Desta forma simples nasceu o conjunto “Os Amigos da Tasca Centenária”, composto por seis músicos e uma cantadeira que perpetuam a nossa memoria coletiva com as suas vozes e melodias tradicionais.

Caldas de São Jorge | Terra de mártir, poesia, rio e águas termais

Caldas de São Jorge é uma freguesia de Santa Maria da Feira, bastante conhecida pelas suas águas termais, mas que tem outras riquezas à espera de serem descobertas.

Intermarché de Ovar conta a história da cidade em azulejo português

Um supermercado já não é apenas um espaço comercial que vende produtos de consumo corrente. Oferecer cultura local em azulejaria portuguesa enquanto vai às compras é reconhecer que a experiência de cliente do século XXI não termina nas caixas registadoras. Por isso é que o Intermarché de Ovar lhe conta a história da cidade num projeto assinado por Marcos Muge.

Faça Login para postar comentários