O Word está a guardar África Pescador da Praia de Bilene Ricardo Grilo
terça, 05 setembro 2017 14:02

O Word está a guardar África Destaque

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192 dias em Moçambique traduzem-se em mais de 4000 fotografias, 50 vídeos e inúmeros momentos que nenhuma objetiva poderia captar. Baterias explodiram, passaportes roubados (e reencontrados), fronteiras cruzadas e cajus (demasiados) apreciados. Infelizmente, os espinafres não resistiram, acabando dizimados pelas mãos de uma senhora de porte frágil mas força, aparentemente, invejável.

The PotholesO credelec teve os seus momentos de diva, enfurecido por ser ignorado; e água alturas em que ameaçava ser cortada. Sobrevivi à época dos ventos, existe mesmo!, e enfrentei, pela primeira vez, tornados de lixo capazes de sedimentar objetos de origem desconhecida em sítios improváveis como as ingénuas das minhas orelhas.

“Eish” é, provavelmente, a palavra que melhor define uma aventura em tudo diferente do que tinha imaginado mas da qual não abdicaria. As “mamãs” proliferam nos passeios largos das principais avenidas, vendendo essencialmente fruta e legumes.

Encontrei algumas das mais belas expressões faciais de sempre, rostos repletos de vida, sedentos por descobrir. Conheci dois pescadores, em Bilene, que não faziam ideia que existiam pescadores em Portugal e, caso existam (reconheceram eles), só poderiam ser negros.       

A cidade das Acácias, como é falaciosamente conhecida, por erro do pré-25 de Abril, oferece o charme de um local em construção, cheia de possibilidades e enigmas, mas também acorrentada a medos e problemas que só o tempo poderá ajudar a curar.

O Verão e o Inverno vão-se sobrepondo numa harmonia que os dias, curtos, alimentam sem artifícios. Neste país, que se estende ao longo de mais de 2.000 quilómetros, a vida não adquire a dimensão pesada de futuro que na Europa tanto significa. O presente é o que realmente importa, e cada dia é mais um dia que passa numa vida que pode não ser a melhor que mas usufrui de um equilíbrio tão difícil de alcançar.

Moçambique faz-se de encontros com a Suazilândia, África do Sul e Lesoto. É união das estradas de Inhambane, do mercado da Macia e do frango de Xai-Xai (aquele que um dia alguém disse não saber onde ficava). O jazz escuta-se ao longo de toda a cidade, repleta de cultura, criações e possibilidades. As molduras querem ousadas, o enquadramento pouco equilibrado e o grão quanto mais intenso melhor.

Guardar África no Word é o encerrar de um capítulo. Durante seis meses descobri experimentei uma nova forma de olhar o ser humano, debati geopolítica, descobri o jazz africano, desconfiei várias vezes que iria ser roubado e ri, ri muito, quando menos esperava. No fundo, guardo África com saudade mas também certeza de que não lhe pertenço. Vivi-a, venturei-me, deslizei na neve e bebi água de coco. Tirei fotografias e tomei decisões. A Mamã África, de facto, domina o tempo, não vive apenas em casas de zinco, e surpreende. É o ritmo da marrabenta que seduz, o marisco que afinal não abunda e o chapa que desafia qualquer um.

Maputo é mais do que a selva urbana em que vive, a cidade que parece em estado sítio permanente, com tanto ainda por fazer mas que já alcançou tanto. É também a casa de milhares de portugueses, o sítio onde se pode vislumbrar o pôr-do-sol a partir de 33 andares, acompanhar a construção de uma ponte megalómana, ouvir a simplicidade das suas gentes e atravessar o rio para almoçar.

Os chocolates a que não resisti, os silêncios que tanta falta faziam e as aventuras domésticas compõem seis meses de uma fase que deixa saudade.

Obrigado Mamã África

 

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Autor

Ricardo Grilo

Histórias capazes de entrar em contacto com as emoções de quem as lê justificam a minha paixão pelo jornalismo. Natural de Santa Maria da Feira, acredito no potencial de um concelho em ensaios para escrever a sua autobiografia. Aos 24 anos, e enquanto colaborar do ‘Ondas da Serra’, procuro a beleza em escrever sobre uma terra tão especial.

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