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O mundo das artes de rua rendido a Santa Maria da Feira
quinta, 20 julho 2017 13:49

O mundo das artes de rua rendido a Santa Maria da Feira

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Santa Maria da Feira foi a capital mundial da criação artística contemporânea para o espaço público entre os dias 24 e 27 de maio passado, com o acolhimento do FRESH STREET#2, a segunda edição do maior seminário internacional para profissionais do setor das artes de rua, em ligação direta com o Imaginarius, o maior festival português de artes de rua e uma referência internacional.

Cerca de 400 profissionais de 40 países juntaram-se aos 75.000 visitantes do festival, conquistando uma nova dinâmica, numa oportunidade única de promoção internacional do setor das artes de rua e circo contemporâneo português à escala global. Dois meses passados, a organização recolheu opiniões de alguns dos participantes, reveladoras de uma visão aglutinadora e transectorial, capaz de elevar Portugal a uma referência no espaço europeu neste domínio artístico em franca expansão internacional.

Tradicionalmente as artes de rua contextualizam-se por uma linguagem artística pouco reconhecida e com fortes ligações politicas, algo que muito mudou nos últimos 20 anos, através do desenvolvimento de novas abordagens e linguagens transdisciplinares um pouco por todo o mundo. Assim, o setor respira novos desafios e oportunidades como se reflete nas abordagens pós-seminário.

O coordenador da Circostrada Network, Stéphane Segreto-Aguilar (França), resume claramente a importância do seminário a um “momento bienal único” para “inspirar os profissionais presentes com bons exemplos de todo o mundo”.

Jens Frimann Hansen, diretor artístico do Helsingør Teater e do Passage Festival (Dinamarca), o FS#2 é um “importante espaço de encontro e partilha, onde os profissionais podem estar juntos para tecer interessantes discussões sobre artes de rua no contexto global atual”. Numa visão de futuro, Jens acredita que “as artes de rua têm uma grande capacidade de desenvolvimento, daí ser muito importante a discussão das artes no espaço público para potenciar a sua afirmação internacional”. Em contraponto, Maud Le Floc'h, diretora do Le pOlau – Pôle des arts urbains (França), vinca claramente a sua visão, acreditando que o planeamento urbano e a criação artística para o espaço público podem “conviver ativamente para uma mudança estrutural e de conteúdo no planeamento das cidades de hoje”. Maud reforça que é “essencial unir artistas e agentes de planeamento urbano para a criação de novas visões integradas e encontrar um compromisso entre quem planeia e vive nas cidades”. Mais, deverá “ser considerada uma nova competência polivalente nos agentes de planeamento urbano”.

As “artes de rua na atualidade conseguem unir as diferentes camadas da sociedade”, afirma Tanja Rutier, da HH Producties (Holanda), em sintonia com Cristina Farinha (Portugal), na sua defesa pela “democratização do espaço público” e a “importância das artes de rua para que as pessoas possam reclamar a utilização da própria cidade” de outros prismas e sem receios. Já Kim Cook, diretora do Burning Man (Estados Unidos da América), complementa este raciocínio com a sua visão relativa à “importância da convivência da tradição e contemporaneidade no espaço público dos nossos dias”, que na realidade “é cada vez menos público, com o alargamento das áreas privadas e da necessidade de encontrar soluções de convivência”.

O ativismo e a conexão do espaço público com as pessoas e o nosso dia-a-dia são assertivamente defendidos por Noeline Kavanagh, diretora artística do Macnas (Irlanda), e que defendeu no âmbito do FS#2 o “papel das artes de rua na influência de públicos e na decisão política”. Com um papel ativista e uma visão altruísta, Noeline defende que “temos de ser arquitetos da nossa imaginação, materializando-se como o antidoto dos nossos tempos, de forma a abrir o dialogo das pessoas com o espaço público e fortalecendo a responsabilidade de cada um de nós pela criatividade das nossas cidades”. A coesão da identidade europeia desenvolvida a partir da arte no espaço público foi outro dos fatores-chave a concluir, sendo que Tracy Geraghty, representante de Galway 2020 – Capital Europeia da Cultura, defende a necessidade de “fruir o nosso espaço comum, encarando a diferença como a alavanca para mutação de visões e estigmas sociais, capazes de transformar a nossa realidade à escala europeia”. Assim, devemos encarar as nossas cidades como “ferramenta de evolução artística e social”.

Os “desafios da qualificação” e o exemplo do Reino Unido, onde “as artes de rua existem como um setor organizado e ativo” são referidos por Angus MacKechnie, diretor do ISAN, como objeto de mudança e oportunidade no contexto europeu, com a vantagem clara da “partilha de ideias, criação e imaginação” de eventos como o FRESH STREET#2. Também Goro Osojnik, diretor do Ana Monro Theatre (Eslovénia), reforça a ideias da necessidade de “posicionar as artes de rua como qualquer outro domínio artístico, dai a importância de seminários como este para o setor, o seu reconhecimento e o seu posicionamento”. Com visão idêntica veio a Portugal Jong Yeoun Yoon, diretor artístico do Korea Street Arts Center (Coreia do Sul), afirmando que é essencial a “partilha de informação para o crescimento do mercado das artes de rua na Coreia”, onde nos “últimos 10 anos se lutou ativamente para a inclusão das artes de rua nos sistemas de financiamento às artes, até agora sem sucesso”.

Efetivamente, um fio condutor de debate com foco no posicionamento das artes de rua e no seu reconhecimento, algo que em Portugal aconteceu precisamente no FRESH STREET#2, onde na sua intervenção Miguel Horando, Secretário de Estado da Cultura, anunciou o reconhecimento das artes de rua e circo contemporâneo como disciplina especifica das artes performativas, vincando e oficializando este domínio de trabalho no nosso país, a partir de uma ação de reconhecimento e posicionamento internacional do setor em Portugal promovida pelo Imaginarius.

Em rescaldo destes 4 dias marcantes para a afirmação das artes de rua em Portugal, de forma interna e externa, Gil Ferreira, Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira afirma que se viveu um momento “de celebração do espaço público”, num momento importante para Portugal através do seu “reconhecimento à escala europeia como um espaço privilegiado de diálogo intercultural alargado” e na “criação de visões sobre como poderá ser o futuro da criação artística contemporânea para o espaço público”.

O FRESH STREET volta a acontecer dentro de 2 anos, em Galway, na Irlanda, sendo que o Imaginarius voltará a integrar o grupo de trabalho responsável pela programação dos debates e sessões, ao nível da Circostrada Network. Com este processo, o Imaginarius continua na linha da frente e com uma presença ativa na transformação e reconhecimento unanime do setor das artes de rua à escala internacional.

Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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